Tim Vickery: Resposta à tragédia da Chapecoense mostra que quase todas as terras são países do futebol

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Sempre acho aconselhável fazer as previsões depois de o evento ocorrer. Assim, não se corre o risco de cair em uma armadilha, como aconteceu com Graciliano Ramos em 1921.

Futebol, opinou o grande escritor, não passava de "um entusiasmo do fogo de palha capaz de durar bem um mês. É roupa de empréstimo, que não nos serve. Para quê metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza."

Ramos "secou" o futebol, mas a sua previsão acabou sendo levada pelo tsunami da história. Viveu o suficiente para testemunhar a comoção nacional com a Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil.

Mas por que errou tanto? Em parte, de uma maneira compreensível, por não entender a natureza do futebol e o seu potencial para se espalhar.

Seria natural, em 1921, Graciliano enxergar o esporte como uma atividade dos grã-finos locais, imitando um hábito que começou com a elite britânica. O futebol se codificou nas escolas dos ricos da Inglaterra, procurando formar pessoas com uma mentalidade de equipe para administrar o império.

Sem se aprofundar nas características do jogo, não tinha como o escritor prever como o futebol era feito sob medida para a multidão: não precisa de equipamento caro, pode ser jogado em quase qualquer espaço, todos os biotipos têm lugar no time.

Mas essa simplicidade esconde uma realidade complexa - afinal, a gama de movimentos no futebol é extensa.

Um homem com uma bola pode passá-la a qualquer distância, direção e altura que quiser. Aliás, nem precisa passar. Pode driblar.

Futebol, então, pode ser interpretado de muitas maneiras diferentes. Com frequência, a opção escolhida é cultural. O futebol sul-americano, por exemplo, vai além do vigor físico, mais característico dos britânicos.

Virou uma atividade mais artística, cheia de fintas e piruetas, perfeita para o jogador com centro de gravidade baixo. A maneira como se joga diz muito sobre quem você é.

Estrangeiro?

O outro equívoco de Graciliano Ramos foi o excesso de nacionalismo e negação de que o Brasil, especialmente naquela época, tratava-se de um país de imigrantes.

Depois que o Brasil atingiu excelência e predominância no esporte, esse mesmo nacionalismo começava a se manifestar de uma outra forma. Não era mais "uma coisa estrangeira". O Brasil, se dizia, era "o país do futebol". Era que nem bossa nova, muito natural. Bastava o craque tupiniquim acordar em um estado de graça e o triunfo estava garantido.

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Image caption Colombianos homenageiam a Chapecoense no estádio onde o time catarinense enfrentaria o Altético Nacional de Medellín; reação à tragédia mostra que 'quase todas as terras são países do futebol', diz colunista

Interessante ver como, depois da última Copa, o jornalismo esportivo no Brasil está lutando para achar uma nova linguagem. Os mitos heroicos da escola de Nelson Rodrigues não servem tanto quanto antes.

Sugiro que um passo importante neste processo é a necessidade de ser honesto sobre o passado. Cito um exemplo de precisamente 80 anos atrás.

Em dezembro de 1936, houve três clássicos de Flamengo x Fluminense. É um momento fundamental na história do futebol brasileiro.

O Rio de Janeiro ainda era a capital, com a novidade glamourosa de se ter a rádio transmitindo os jogos pelos quatro cantos do país.

Por que três Fla-Flus? Porque esses clubes já eram profissionais. Houve uma rixa. Botafogo e Vasco da Gama ainda jogaram um torneio só para amadores.

O aspecto profissional muda muito. Abre espaço para jogadores mais pobres. E transforma o esporte em negócios. Cria a necessidade de uma torcida de massa, muito além do quadro social - e elitizado - de clubes como Flamengo e Fluminense.

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Image caption Para Vickery, há referências mundiais na paixão brasileira pelo futebol

Toque popular

Sob a presidência de José Bastos Padilha, o Flamengo já estava se esforçando para adquirir um toque popular. E quando o seu amigo Mario Filho comprou O Jornal dos Sports, ele ganhou o aliado perfeito.

Filho usou esses três clássicos para mudar o perfil do evento. Anunciou uma competição das torcidas.

"Haverá", escreveu em 15 de dezembro, "nas archibancadas, nas geraes, nas cadeiras, o duelo das torcidas - gritos, hurras, cartazes, hymnos, alleguas. Tentaremos portanto introduzir no Brasil o que se faz nos Estados Unidos".

Filho só poderia estar pensando em beisebol, de longe o esporte norte-americano mais popular da época. Quem diria? O "jeito brasileiro de torcer" seria também algo importado!

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Image caption Futebol sul-americano vai além do vigor físico, tem um caráter mais artístico, diz Vickery

Duas semanas depois, Mario Filho comemorou o sucesso da iniciativa.

"O football no Brasil," escreveu no Jornal dos Sports de 29 de dezembro, "conseguiu dar o primeiro passo na 'americanização' da torcida que está agora pronta a se organizar definitivamente como fator preponderante de estímulo aos bandos a que correspondem".

Podemos concluir, então, que tanto o esporte quanto a maneira de assisti-lo são frutos de um diálogo com o mundo.

Assim, "o país do futebol" não faz tanto sentido. País com a seleção historicamente mais bem-sucedida, perfeito. Mas, como a resposta global para a tragédia de Chapecoense está mostrando, quase todas as terras são países do futebol.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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