Tim Vickery: George Michael teve de buscar sua própria verdade para virar um artista

  • 27 dezembro 2016
Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

A minha ficha só caiu meses depois da morte de Michael Jackson.

Entre as tantas pérolas dele, sempre gostei de Wanna Be Starting Something, de 1982. Com um ritmo contagiante e até um refrão em linguagem africana, curtia como uma música de comemoração.

Além de abrir o disco Thriller, geralmente era a primeira dos shows dele precisamente por causa de seu poder animador.

Foi só quando estudei as letras que, finalmente, entendi. Trata-se, na verdade, de uma confissão de tristeza imensa, de um homem enfrentando grandes dificuldades para funcionar no mundo.

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Image caption Michael Jackson morreu em 2009, aos 50 anos

O sucesso extraordinário de Off The Wall, lançado três anos antes, tinha levado ele para um outro patamar. Tinha perdido a conexão real com a sua família e estava sem referências para lidar com seu entorno e com uma mídia que agora queria devorar a sua celebridade.

Ele cantou "the pain is thunder" ('a dor é um trovão', em tradução livre) - mas a gente estava ocupado demais dançando para ouvir.

Brevemente, a tensão de seu novo status ajudou a brotar músicas geniais - Billie Jean é uma canção na qual Jackson consegue canalizar toda a sua paranoia, sua nova incapacidade de confiar, em alguns minutos de magia escura.

Mas como ser humano, e logo como artista, ele já estava em decadência, pagando um preço enorme pelo sucesso e fugindo para um mundo de fantasia.

George Michael tomou o caminho oposto.

Com 18 anos, já se revelou um talentoso vendedor de músicas chiclete. Tem valor - e não somente a lembrança afetiva de uma geração - em algumas de suas músicas da época do Wham!.

A Ray of Sunshine, do primeiro disco, capta um estado de alegria pura, e o cover de If You Were There, dos The Isley Borthers, mostra uma voz maravilhosa.

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Image caption Desconfortável, George Michael se tornou símbolo sexual, conta colunista

Mas a fórmula do Wham! tinha limitações graves e óbvias.

O papel reservado para George Michael era o de um símbolo sexual para meninas adolescentes. Logo, ele não se sentia confortável. Estava jovem demais, verde demais, ingênuo demais. Não sabia ainda quem ele era. Teve que crescer, viver, aprender, sofrer - para depois se expressar. Teve que buscar a sua própria verdade para virar um artista, um intérprete de refeições musicais em vez de um vendedor de chiclete.

Esse processo chegou ao seu auge há 20 anos. Older, de 1996, é um disco memorável, uma hora em que George Michael compartilha as emoções e reflexões de um período intenso; descobre que é gay, se apaixona (por um brasileiro) e vive um amor que se perde quando o seu parceiro morre.

A grandeza do disco se encontra na sua fidelidade aos altos e baixos de uma verdade impactante. Como o cantor falou alguns anos depois, ele nunca se sentiu tão inspirado antes, e ele não queria se sentir tão inspirado de novo.

Talvez ele só tenha conseguido atingir aquele nível sublime uma vez na carreira. Em 1997, foi preso por cometer um "ato lascivo" em um banheiro público em Los Angeles. Era a confirmação da sua sexualidade, além de uma humilhação muito pública. E inspirou uma obra de mestre, Outside - uma música melhor ouvida acompanhada por seu clipe genial.

Michael abriu o jogo sobre a sua orientação sexual, zombou da polícia de Los Angeles e passou uma mensagem sobre o valor das relações sexuais entre adultos, de qualquer gênero. Ele usou uma experiência pessoal para fazer uma declaração universal - a verdadeira marca de um artista.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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