Tim Vickery: Beatles tratavam a música negra com respeito - e aí está parte da explicação de seu sucesso

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Quem mora em outro país sempre perde parte da sua identidade - faz parte, é normal.

Isso é especialmente verdade no Brasil, que, por ser um país de imigração recente, teve uma necessidade extra de forçar a barra na criação de um "povo brasileiro", que se diferencia dos outros 96% da população mundial. Aí tem a divisão binaria e bem estúpida entre "brasileiro" e "gringo", como se o mundo se dividisse em dois lugares, "aqui" e "lá fora".

Então, no avião que na semana passada me trouxe de volta para o Brasil, aproveitei a oportunidade de mergulhar numa coisa minha, muito minha - mas que felizmente posso compartilhar com o mundo.

Junto ao "ticket to ride" - ou o bilhete aéreo -, ganhei o direito de assistir um novo documentário sobre os anos em que os Beatles faziam shows chamados The Beatles: Eight Days a Week. Assisti três vezes, uma atrás da outra - e na chegada ao Rio tentei ver no cinema, com telão e boa qualidade de som - esforço frustrado porque a sessão estava lotada.

Vou tentar de novo, porque o filme me levou de volta para um momento mágico, quando tinha 10 anos de idade e o primeiro filme dos Beatles, A Hard Day's Night - detesto a tradução em português, Os Reis do Iê Iê Iê - passou na televisão inglesa.

Descobri naquela hora e meia que queria ser um Beatle. Fiquei fascinado. A explosão de euforia, as risadas irreverentes, a roupa, o corte de cabelo (que até imitei durante um tempo - nenhuma foto sobrevive!) e a alegria daquele som divino. Era isso que queria.

Na época, minha família tinha um aparelho de som com tocador de fitas que funcionava com pilhas. Fui para a casa de amigos mais abastados, donos de um toca-discos em estéreo, e gravei em uma fita o disco dos sucessos dos Beatles de 1962-66, e na outra de 1967-70.

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Image caption Formato do grupo era inovador à época, lembra Vickery

Ouvia aquelas fitas quase sem parar, até que as pilhas se desgastassem e passassem a tocar com a metade da velocidade normal.

Cada vez que ouvia, era uma viagem e tanto, uma aula sobre a passagem do tempo.

Das músicas simples e alegres no início para as coisas mais pesadas e profundas mais tarde. De uma comemoração das oportunidades da nova sociedade de consumo para as advertências de uma crise espiritual coletiva.

As músicas de 67-70 eram mais longas, e nem tudo cabia na minha fita, que, se não me engano, cortou no meio a música Don't Let Me Down. Gostava também das músicas dos últimos anos, mas as achava um pouco desconcertantes, cheias de emoções e visões complexas e quando a fita acabava, era sempre um alívio voltar para as certezas alegres das primeiras faixas e curtir a viagem mais uma vez.

E até hoje essa coisa minha é curtida por geração atrás de geração no mundo inteiro.

Parte do sucesso vem do formato da banda - totalmente normal hoje em dia, mas revolucionário na epoca. The Beatles eram autossuficientes. Não somente tocavam, mas também compunham as músicas. E tiveram dois compositores geniais: John Lennon e Paul McCartney.

A dinâmica entre os dois, de uma mistura de cooperação e concorrência, sempre elevava a banda para novos picos artísticos - a tal dinâmica, assim como fez a banda, também acabou a destruindo.

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Image caption Sucesso e assédio mudaram rumos da banda

Acredito, também, que o fato de ser inglês ajudou. A combinação da irreverência e bravata, típico da classe operária britânica, foi cativante. Além disso, tem a questão racial. Isso porque as raízes da música dos Beatles, em grande parte, eram da cultura negra americana.

Nos Estados Unidos, o legado da escravidão tinha peso. Elvis Presley e outros eram "brancos que cantavam como negros", mas logo sofriam pressão para ficar mais suaves, mais "aceitáveis" para uma audiência de massa.

Os Beatles não tinham tais complexos raciais. Como esclarece o filme, se recusaram a tocar para plateias segregadas.

Um dos momentos mais fortes do documentário é o depoimento da atriz Whoopi Goldberg, que conta que sentiu uma conexão imediata com os Beatles e podia se imaginar sendo amiga deles, apesar de ser negra.

Os Beatles pegavam emprestado da música negra americana, a tratavam com respeito, ficavam adicionando elementos novos e deu no que deu. Como Lennon uma vez contou, quanto mais real a banda ficava, mais surreal o entorno.

O filme mostra bem o preço que se pagava para gerar tanta histeria. Assédio o tempo todo - a ponto de não conseguir nem se ouvir no palco, pois a tecnologia de som na época não era boa suficiente para funcionar nos estádios onde a banda foi obrigada a tocar.

Nenhuma surpresa, então, que os Beatles resolveram deixar de fazer shows e ficavam no estúdio tentando processar em música as suas experiências e pensamentos.

Lá na poltrona, em cima de oceano Atlântico, refleti que não realizei o sonho da infância de virar um Beatle. Não faz mal. Como escreveu Richard DiLello, que trabalhou com a banda nos últimos anos, "quem, entre nós, em um momento ou outro não sonhou em ser um beatle? Mas se você não fosse você, e fosse um beatle, pense no que você teria perdido. Você teria perdido os Beatles".

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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