Tim Vickery: Para ser 'do bem', é preciso ser bem mais do que 'de família'

  • 10 março 2017
Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Aliviado e emocionado com o fracasso de uma tentativa de impeachment, o presidente do Corinthians declarou ser "uma pessoa do bem, uma pessoa de família".

Impressionante como no Brasil essas coisas são vistas como sinônimos. Ser "de família" automaticamente implica em ser "do bem".

Talvez ninguém tenha informado a Máfia. O grupo criminoso com raízes na Sicília se organizou em famílias - e um motivo para o seu crescimento nos Estados Unidos foi um certo desencontro entre, por um lado, a hierarquia da extensa família da periferia e, por outro, um sistema legal no centro baseado no individual.

Por exemplo, todo mundo sabe que Al Capone manda no mundo do crime em Chicago. Mas não há como agir contra ele por falta de testemunhas: ninguém está disposto a falar, por medo, no caso daqueles que estão fora da "família", enquanto aqueles ali dentro ficam com a boca bem fechada por odebecer a hierarquia.

Daí surgiu a estratégia de ir atrás dele por infrações tributárias.

A aversão de Al Capone a impostos está longe de ser o único crime financeiro cometido em nome da "família". Lembro das imagens, gravadas em segredo, de um grupo de políticos brasileiros recebendo dinheiro ilícito. Eles rezaram agradecidos pela bênção desse "reforço", sem nenhum constrangimento ou reconhecimento de que estavam burlando a sociedade.

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Image caption Estrutura 'familiar' do esquema de Al Capone dificultou acusá-lo de crimes, lembra Vickery

Com certeza dormiram todas aquelas noites o sono dos justos, felizes com o fato de que esse dinheiro extra iria ajudar no orçamento familiar. Aí mora o perigo.

"Não existe isso de sociedade", declarou Margaret Thatcher, a polêmica primeira-ministra de Reino Unido, em 1987. "Há indivíduos homens e mulheres, e há famílias."

Trata-se de um esforço para fazer desaparecer uma contradição da humanidade, o conflito em potencial permanente entre "eu", "nós" e "todo mundo". Aquilo que avança pelos interesses da minha família é justificável, louvável até. Já que não tem sociedade, o bem comum não existe - e daí não pode ser prejudicado.

Levada até a sua extrema (il)lógica, essa linha de pensamento prega um estado de guerra constante. E só pode terminar em corrupção.

A sensação de impunidade é somente uma das condições necessárias para espalhar as práticas corruptas. Também é preciso ter uma sociedade desigual, que gera o medo de cair, ou o medo de perder uma oportunidade.

Mas a importância dada para a unidade familiar também faz parte, porque fornece uma justificativa: "não estou pegando para mim, mas para bancar a faculdade da minha filha. Sou do bem, sou de família".

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Image caption 'Não existe isso de sociedade', afirmou certa vez Margaret Thatcher

Mas desde o início dos tempos o bem da humanidade depende de cooperação, de trabalho conjunto de grupos muito maiores do que uma família.

Caçar aqueles mamutes enormes era uma tarefa muito difícil para uma espécie com tantas limitações físicas. Era necessário o esforço de várias pessoas tendo que trabalhar juntas, com uma confiando na outra - e parece que foi justamente essa confiança que foi determinante para o desenvolvimento da língua.

Sem a necessidade da confiança, não há a necessidade de se comunicar. Outros primatas também têm as ferramentas para desenvolver a fala. Mas, sem um grau elevado de confiança e cooperação, o potencial não se transformou em realidade.

Agora, o próprio sucesso da humanidade nos coloca diante de vários desafios - somos capazes de produzir coisas incríveis. Como, então, achar uma maneira justa de distribuir nossas riquezas? Como assegurar que a nossa produção não danifique tanto nosso planeta?

Para ser mesmo "do bem", precisamos ser mais do que "de família". A situação exige uma abordagem maior, inclusive porque existem problemas graves que temos de solucionar coletivamente.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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