Tim Vickery: O populismo perigoso - e seu papel na briga de dois carecas por um pente

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Há 35 anos, os exércitos da Argentina e da Grã-Bretanha estavam se preparando para a guerra nas ilhas localizadas no sul do oceano Atlântico - Las Malvinas para os argentinos, The Falklands segundo os britânicos.

Na época eu tinha quase 17 anos, e a situação me deixava confuso. Tanto tempo depois, estou me aproximando dos 52 anos, e a situação ainda me deixa confuso - uma prova, sem dúvida, da minha própria falta de evolução.

Sigo pensando que a melhor definição do conflito veio do escritor argentino José Luis Borges, que o comparou com dois carecas brigando por um pente.

Falava-se de reservas de petróleo por perto, mas não vejo isso como o grande motivo para a guerra. Neste caso, tudo é negociável. Mais difícil de negociar é a questão da soberania, especialmente quando países querem agir como crianças, e quando os seus governos têm motivos políticos para tal.

A ditadura argentina foi em busca de um triunfo, querendo - e conseguindo - colocar o povo na rua agitando bandeiras.

Mas, na sua ignorância, esqueceu que o governo britânico, muito mal nas pesquisas, também poderia se beneficiar de um triunfo.

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Image caption Governo de Margaret Thatcher aproveitou "espírito imperial" para aumentar índice de aprovação

A Argentina invadiu e a Grã-Bretanha reagiu, e o sangue foi derramado por um local que, segundo o celebrado escritor Dr. Johnson disse em 1771, era "tempestuoso no inverno, estéril no verão, uma ilha que nem os selvagens do sul dignificaram com moradia".

Impressionante como um terreno tão pouco promissor foi capaz de deflagrar, de repente, tantas paixões. No momento daquela invasão argentina, em 1982, muitos britânicos nem tinham ouvido falar das ilhas. Outros tinham uma vaga impressão de que elas ficavam perto da Escócia. Mas, de repente, viraram uma questão de vida ou morte.

Lembro bem a reação do meu pai quando as forças britânicas começaram a reconquistar as ilhas. "A gente não tem nenhum direito de estar lá", ele disse. "Mas que bom que estamos botando para valer!" Fiquei apavorado.

Embora ele não tivesse grande nível educacional, foi um homem racional, normalmente avesso a surtos de emoções assim. Mas até ele estava contaminado pelo espírito imperial que pegou muita gente e mudou radicalmente o cenário político local.

A mudança na Argentina acabou sendo ainda mais radical. A perda da guerra foi um prego fatal no caixão da ditadura. O país pagou um preço alto com a perda de tantas vidas (649, contra 255 britânicas), mas pelo menos ganhou a volta da democracia.

Fico pensando sobre aqueles argentinos que comemoraram quando seu exército invadiu as ilhas. Estou ciente de que tomar posse das Malvinas tem sido uma bandeira importante da autoestima argentina.

Mas gostaria de saber como as pessoas imaginavam, na prática, que as vidas delas iam melhorar em consequência dessa retomada. Com os cabelos rareando, aquele pente iria servir para quê?

A visão do ser humano como um bicho racional, que escolhe suas opções com base numa escala de utilidade, pertence somente a modelos econômicos. A realidade é mais complexa. Somos uma espécie social. Desejamos pertencer a alguma coisa maior do que nós mesmos. Trata-se de uma necessidade humana fundamental.

Image caption Ditadura argentina usou conflito com Reino Unido para ganhar apoio popular, mas caiu com o fracasso na guerra

O problema em potencial é óbvio. Um "nós" pressupõe um "outro", aquele que não pertence. Pesquisas mostram que grupos de chimpanzés fazem guerra contra outros grupos somente pela emoção da atividade. Nossos grupos são maiores e mais destrutivos.

Durante anos, alguns anunciaram o fim do Estado-nação, que tinha ficado supérfluo dentro da nova ordem mundial. Eventos mais recentes mostram que essa teoria é muito prematura. É verdade que outras comunidades, ou identidades coletivas, são possíveis.

Mas, como vi em 1982, o Estado-nação ainda tem bastante poder de mobilização. Ignorar isso é deixar o campo aberto para o tipo de populismo perigoso - aquela linha que incentiva os carecas a brigar por um pente só para arrancar os dentes e enfiá-los nos olhos dos outros.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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