Tim Vickery: Aos 55 anos, 'Garota de Ipanema' mostra que precisamos de homens mais afinados com o século 21

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Os gordos e os carecas que me desculpem, mas a capacidade de se enxergar é fundamental.

Adoro a música Garota de Ipanema, com seu ar leve, ensolarado e otimista de bossa nova brasileira - até sua melancolia é para cima, sorridente.

Mesmo assim, não dá para negar um aspecto perturbador na grande canção: trata-se de um quase cinquentão babando por uma ninfeta que passa cheia de exuberância adolescente, enquanto ele se mima com mais um copo de uísque.

É verdade que "melhor amigo do homem, cachorro engarrafado" - como Vinícius de Moraes descreveu o uísque - é uma ótima frase. Mas um cão teria que morder muito o rosto para deixar alguém tão feio quanto um pinguço. Que, na maior cara de pau, ainda se reserva o direito de cobrar beleza.

Será que hoje em dia alguém tão letrado comporia uma letra com as mesmas suposições subjacentes? Já passaram 55 anos desde que Garota de Ipanema nasceu, décadas em que os papéis tradicionais de homem e mulher mudaram bastante - ou pelo menos foram sacudidos.

Trata-se, obviamente, de um processo ainda em curso, e que talvez não tenha saído da fase inicial.

Às vezes fico chocado com papéis tradicionais de gênero assumidos naturalmente por jovens brasileiros. Houve muito progresso, mas ainda há mulheres decorativas e eternamente infantis que só podem ter vida independente nas brechas permitidas pelo homem provedor que manda, com a cola nociva de ciúmes mantendo as pessoas presas e incapazes de se desenvolver.

Esse modelo ainda existe, se reproduz e contamina.

Direito de imagem André Koehne/Wikicommons
Image caption A grande letra de 'Garota de Ipanema', de Vinicius de Moraes, leva colunista da BBC Brasil a refletir sobre os papéis dos homens e das mulheres na sociedade atual

O Brasil, é claro, não passou pela ruptura que aconteceu na Segunda Guerra Mundial na Europa e nos Estados Unidos: como os homens foram para as Forças armadas, As mulheres tiveram que substituí-los nas fábricas.

Depois do conflito, houve tentativas de botá-las de volta no papel anterior, o da submissa do lar. Mas muitas dessas tentativas foram resistidas pelas mulheres, que, depois de ter um gostinho de independência, só queriam mais.

No Brasil as mudanças têm sido mais suaves, mas acontecem pelo mesmo motivo - é a economia (uma palavra feminina!) que manda.

Avanços tecnológicos reduzem a necessidade do poder braçal. Cada vez mais os tradicionais empregos masculinos são destruídos - uma máquina faz melhor e nem cobra salário.

Enquanto isso, a expansão do setor de serviços cria empregos onde as mulheres se destacam. O velho modelo, com as suas certezas, já não se aplica.

E como estamos lidando com a mudança? Ouvi pouco tempo atrás, de um grande jornalista local com a experiência de quem morou em vários países, o seguinte: "A mulher brasileira sabe como poucas combinar força com ternura - realmente uma combinação admirável".

Direito de imagem AFP
Image caption Automatização da indústria representa uma ameaça muito maior do que a imigração aos empregos masculinos, diz colunista

Claramente nem toda mulher pode ou quer virar uma titã da indústria. O livre desenvolvimento de todos permite a escolha de um papel mais tradicional, desde que se trate de uma escolha.

Mais preocupante, eu acho, é a situação dos homens. Pesquisas na Europa mostram que são os homens que têm a maior probabilidade de apoiar os partidos políticos com programas anti-imigração, e dá para concluir que isso tem tudo a ver com a sensação de ameaça aos empregos.

Mas a realidade é que, na luta para preservar os velhos empregos industriais, o imigrante é o de menos. É a tecnologia que tirou, tira, e vai tirar muito mais.

Pode botar mais seguro-desemprego, que não resolve. O problema central é a perda de status, de papel e de autoestima representados por um emprego digno.

Lidar com isso, se adaptar para a nova realidade, conviver com uma parceira que talvez ganhe mais e tenha mais possibilidades - tudo isso representa um desafio enorme para os homens.

Precisamos de um novo homem brasileiro, capaz de mudar para não ficar desafinado no século 21.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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