Tim Vickery: O que minhas escalas em Portugal me ensinam sobre a economia do Brasil

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Quase dez anos atrás, eu estava voando para Londres, escala em Lisboa, com uma companhia aérea portuguesa. Estava conversando com a minha mulher, uma brasileira, no momento em que um comissário de bordo passava distribuindo água. Peguei e agradeci, mas numa voz que parece ter sido baixa demais para ele ouvir.

Ele parou e perguntou se essa seria a minha primeira viagem para a Europa. Me fingi de burro - leitores regulares vão sacar que isso não exigiu nenhum grande esforço - e respondi: "por quê?".

"Porque", ele explicou em tom de professor irritado, "na Europa temos o costume de falar 'obrigado', ou 'thank you' em inglês, 'merci' em francês".

Sorrindo por dentro, eu agradeci a dica - desta vez numa voz tão alta que acho que acordei a dama sentada atrás - e ele voltou a distribuir água, mais carrancudo a cada copo.

Fiquei com pena do elemento. Passava o dia todo servindo turistas brasileiros, e claramente o fazia com desgosto. Isso, é bom lembrar, aconteceu numa época em que o Brasil ia de vento em popa, e Portugal passava por uma recessão severa.

Pensei nele na semana passada, ouvindo mais um papo no Rio de Janeiro de pessoas desesperadas para mudar-se para Portugal. Pode ser que hoje em dia ele tenha um outro tipo de problema com os filhos da Terra de Santa Cruz. Agora, talvez, os seus aviões não andem tão cheios de turistas brasileiros esbanjando prosperidade. Mas é bastante possível que as ruas dele estejam cheias de brasileiros fugindo da crise tupiniquim.

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Image caption Colunista já não vê mais tantos brasileiros em voos para Portugal; em compensação, vê mais brasileiros morando na rua - um reflexo da mudança na economia

O cenário já é muito diferente daquele do nosso encontro quase uma década atrás. Portugal elegeu um governo com a coragem de romper com a mania insana de austeridade. Resolveu investir em vez de cortar, e cresceu nos últimos três trimestres.

No Brasil, entretanto, o otimismo de dez anos atrás virou fumaça. O Brasil, junto com a Rússia, é "uma grande decepção", nas palavras de Jim O'Neill, o executivo financeiro britânico que cunhou o termo Brics para se referir ao bloco emergente de Brasil, Rússia, Índia e China, e mais tarde África do Sul.

O'Neill ponderou que o Brasil "está muito dependente do preço das commodities (matérias-primas)" e precisa "diversificar e reduzir o peso delas em sua economia".

Se isso é verdade hoje, também era verdade dez anos atrás - o que mina a coerência do conceito dos Brics. Sempre faltaram tijolos sólidos para construir tal conceito. A China é muito grande. O Brasil é muito grande. Mas a relação econômica os coloca em lados opostos da mesa; Brasil vendendo matéria-prima; China comprando, fabricando produtos com valor agregado e depois vendendo-os.

No clima de oba-oba da época, muitos escolheram não enxergar o óbvio - que a partir do momento em que a China crescesse mais lentamente, o Brasil ia ter problemas. E também que, mesmo no auge, haveria um problema - a famosa "doença holandesa", em que a venda de commodities não cria muitos empregos, mas encarece o câmbio, tornando mais difícil criar empregos bons em outros setores.

Então, nos meus últimos voos na companhia aérea portuguesa - sou fiel pela questão das milhas -, não esbarrei com nenhum comissário de bordo raivoso com o sucesso da economia brasileira. As viagens têm sido mais agradáveis, mas mesmo assim é uma pena. Preferia mil vezes lidar com um eventual funcionário mal-humorado do que cruzar com esse exército crescente de brasileiros dormindo na rua.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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