Tim Vickery: Será que quero um celular que faça mais do que telefonemas?

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Eu coloco a culpa no frio.

Recentemente, motivos profissionais me levaram de volta à Inglaterra por dez dias. No último deles, acordei e vi tudo branco - a maior quantidade de neve em quatro anos, dizem.

Isso é a alegria da criançada: dá para fazer homem de neve, brincar com bola de neve e sonhar que não vai ter escola no dia seguinte. Mas, para quem tem de que se deslocar, é um pesadelo.

O aviso foi o seguinte: se não houver necessidade, não tente viajar para lugar nenhum. De carro, não saia sem uma pá para limpar o caminho.

Tive necessidade - queria voltar para o Rio na véspera do verão. Tem necessidade maior?

Táxi para o aeroporto? Nem pensar. Táxi para me pegar na casa da minha mãe? Também, sem chance. Tive que carregar a mala por pelo menos dez minutos com neve até os joelhos para encontrar um taxista que me levasse à estação de trem, para depois fazer conexão com o metrô e chegar ao aeroporto.

Uma viagem épica, então - divertida, é verdade, mas um pouco estressante, pois você sai de casa sem a certeza de que vai chegar.

Ou seja, foi o frio que causou o estresse, e o estresse que causou a perda que agora me deixa com um dilema.

Não sei onde eu coloquei, não sei como aconteceu, não sei nada. Só sei que perdi o meu celular brasileiro. Deixei-o em algum lugar no solo britânico.

Acho que é somente o meu terceiro aparelho em quase 20 anos. Como os dois anteriores, não faz grande coisa. Faz e recebe ligações, manda e recebe mensagens de texto. E só. Ou melhor, fazia essas coisas - não é fácil aceitar, mas tenho que começar a pensar nesse celular somente no passado.

Ter um celular assim, hoje em dia, é uma excentricidade quase imperdoável, algo além da imaginação da grande maioria. Já virei motivo de zoação ao vivo na televisão brasileira por usar um treco considerado peça de museu.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Quando os celulares eram vistos como 'tijolos'

O que me espanta aqui é a velocidade da mudança. Quase duas décadas atrás, quando adquiri o meu primeiro celular, eu estava à frente da curva. Ainda era raridade.

Lembro que quando fui assaltado, no final de 2000, entreguei tudo, menos o celular. O escondi, e, voltando para casa depois, o choque tomando conta, tentei enfiá-lo na meia para não perder - tarefa difícil devido ao tamanho do aparelho, hoje em dia visto como tijolo.

Então, ainda no século 20, eu era quase um pioneiro. Mas hoje parece que já fui ultrapassado várias vezes pela grande maioria da humanidade.

Lá estava eu, feliz com uma máquina que faz (fazia, desculpe) ligações e torpedos. Mas passado menos de um quinto do século 21, as pessoas já se acostumaram a viver olhando para baixo, com as suas fotos e aplicativos, obcecadas com a buginganga portátil.

Quando eu comprei o meu primeiro celular, nem existia no mundo um laptop capaz de utilizar conexão wi-fi, o que aconteceu em 1999. A banda larga chegou em 2000 - quantos ainda lembram do barulho do modem conectando pelo telefone? Tecnologia 3D chegou em 2001, Facebook (não, não tenho) foi lançado em 2004 e, no final da década, chegaram os tablets, o streaming de música e vídeos e a grande penetração das mídias sociais.

São mudanças incríveis, e parece que não sabemos ainda para onde isso tudo está nos levando. Entramos na época da informação - uma commodity muito difícil de precificar com modelos convencionais, já que o custo de reproduzir alguma coisa numa versão digital é perto de zero.

Image caption Colunista perdeu o celular durante viagem à Inglaterra, que enfrenta nevascas

E a distribuição gratuita de informação torna desnecessários vários empregos; pense em jornais, por exemplo. Além de pessoas para escrever o conteúdo, precisam de gente para imprimir e distribuir os exemplares em caminhões, além de jornaleiros para vender. Agora, o público pode receber notícias direto na tela, e muitos cresceram com a concepção de que a informação é grátis.

Novas tecnologias criam novas pessoas. Agora, os sociólogos falam em "gente conectada" - e hoje em dia até um operário de fábrica na China tem acesso à informação além da imaginação do maior tecno-nerd de poucas décadas atrás.

Qual vai ser o efeito disso nos rumos da humanidade? Realmente tem o potencial de unir as pessoas? Ou de separar cada um no seu mundinho? Houve esperanças de que as mídias sociais seriam tijolos para construir uma nova democracia - mas já estamos vendo os perigos, e como eles podem ser manipulados.

Será, então, que realmente quero fazer parte desse (admirável?) mundo novo? Ou seria melhor manter meu estilo e ficar com um aparelho que somente faça ligações e mensagens de texto? A verdade é que não sei. Acho que o frio congelou o meu cérebro.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

Leia colunas anteriores de Tim Vickery: