Tim Vickery: Se somos todos obras em progresso, melhor nos juntarmos em vez de nos punirmos

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Dos meus dias de escola, várias décadas atrás, tenho lembranças de um tipo de professor - normalmente já de uma certa idade - que andava indignado com a palavra gay.

O sentido original de gay, no idioma inglês, é "alegre". Mas a palavra já estava sendo mais utilizada para se referir, de uma maneira não pejorativa, a homossexuais - algo que enchia esse tipo de professor de indignação. Tratava-se, na visão desses, já babando de raiva, de uma palavra sequestrada, uma traição imperdoável da língua inglesa. Se o sentido era uma coisa, como poderia mudar para outra?

Olhando para trás, penso o seguinte: como pessoas tão obviamente estúpidas foram capazes de virar professores? Não se trata somente de preconceito. É mais por causa de uma verdade gritante: uma língua, enquanto está sendo falada, é um fenômeno que vive, respira - e que muda, sempre.

A língua de Shakespeare é muito diferente da língua de Dickens, que é muito diferente da língua inglesa de hoje em dia. O inglês falado por esse professor soaria muito estranho 50 anos antes. Mas as pessoas, às vezes até professores, têm dificuldades em colocar as suas vidas em termos relativos. Temos a tendência de achar que as nossas verdades são absolutas. De qualquer maneira, há uma lei básica de comunicação humana: a realidade se modifica, daí a língua se modifica também, para assimilar as mudanças e refletir a situação nova.

Um exemplo óbvio é a linguagem chamada de "politicamente correta" (daqui em diante, numa tentativa de minimizar as vulgaridades que sempre cometo com a língua portuguesa, vou usar a abreviação "pc"). Novas expressões são criadas ou emprestadas, enquanto algumas palavras ou frases antigas passam a ser tratadas como inaceitáveis.

Trata-se de uma tentativa de criar um novo tipo de vocabulário mais inclusivo, uma comunicação que consiga driblar velhos preconceitos e maneiras de falar. Ainda estamos engatinhando. A linguagem "pc" às vezes parece um primeiro rascunho de um futuro que talvez nem chegue.

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Image caption Novas expressões são criadas ou emprestadas, enquanto algumas palavras ou frases antigas passam a ser tratadas como inaceitáveis

Penso assim porque parece claro que a maneira como o "pc" está sendo imposto provoca uma reação adversa. De Trump a Bolsonaro e aos evangélicos, há uma clara rebelião contra a obrigação de aceitar os parâmetros do "pc". Acho interessante examinar o porquê.

Vejamos o exemplo do jornalista William Waack, que era da Rede Globo. Friso que não o conheço, e que este nunca inspirou muito da minha insignificante simpatia. Mas, baseado exclusivamente nas notícias públicas sobre a sua demissão, a considero mesmo um exagero.

Waack foi gravado, fora do ar, fazendo um comentário racista enquanto trabalhava na cobertura das eleições nos EUA. Um ano depois, as imagens vazaram, com as já conhecidas consequências negativas para a sua carreira.

Bem, o que ele falou foi estúpido, e ele parece não ter o menor problema em confessar isso. Como todos nós, ele é uma obra em progresso.

A ideia por trás da linguagem politicamente correta deveria reconhecer que somos exatamente isso, obras em progresso. Estamos nadando em águas carregadas de noções tradicionais de gênero, raça, orientação sexual. Às vezes, tais noções vêm à tona.

Como enfrentar esses momentos? No caso Waack, houve um erro. O erro chegou ao conhecimento geral, quem o cometeu reconhece, e deve-se sair desse episódio como uma pessoa melhor, uma obra com um pouco mais de progresso.

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Image caption É sempre importante lembrar que o objetivo é ganhar o debate - e não partir de um pensamento que o debate já acabou e que qualquer um que não concorda é inimigo

Mas às vezes parece que o objetivo de alguns não é melhorar o ser humano - é puni-lo. Uma patrulha divide a humanidade entre puros e impuros. Alguns não são obras em progresso. Já alcançaram um nirvana de sabedoria e têm a capacidade de julgar os outros. É muito presunçoso. E nisso eu estou com Goethe, o grande escritor alemão, e não abro: "Não confie naqueles em quem o desejo de punir é forte".

É sempre importante lembrar que o objetivo é ganhar o debate - e não partir de um pensamento que o debate já acabou e que qualquer um que não concorda é inimigo.

Muito melhor, como guia, é tratar os defeitos da humanidade com humanidade. É uma maneira mais eficaz de atrair mais pessoas para a causa - até porque a luta pela inclusão fica sem sentido se não tiver um programa de avanço coletivo. É preciso agrupar as pessoas, em vez de procurar motivos para afastá-las. Se a sua luta é minha também, estamos juntos. Caso contrário, ninguém vai ficar gay - no sentido original da palavra!

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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