Estereótipos 'sem vergonha' na TV

  • 27 fevereiro 2014
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Me deparei na televisão com o programa da Rede TV Teste de Fidelidade e fiquei tentando entender que aspecto da sociedade brasileira ele representa.

Na Grã-Bretanha, há programas tão ruins quanto esse, e não vou detalhar as críticas que programas do tipo, em qualquer parte do mundo, despertam.

Mas o que me chocou de certa maneira foi como os princípios que regem o programa são calcados em estereótipos de gênero em "estado bruto".

O corpo feminino é transformado em objeto de forma desavergonhada, e os homens, como animais, são frequentemente retratados como incapazes de conter seus impulsos sexuais.

Grupo de defesa dos direitos das mulheres fez protesto na praia de Ipanema

Um detalhe no enredo que acompanhei me chamou a atenção. Foi a sugestão implícita de que quando uma mulher diz "não" a avanços de um homem, esse "não" pode ser interpretado como um "sim tímido", principalmente se roupas justas e um tom "incerto" fizerem parte da equação.

Entra-se aí em um terreno perigoso em que interpretações, como sempre, podem estar erradas.

O desafio da mulher no Brasil, como na maior parte do mundo, ainda é grande - o Brasil ocupa o 7º lugar num ranking mundial de homicídios femininos, que inclui 84 nações. De acordo com os últimos dados, 46% das pessoas atribuem a prevalência de violência doméstica a uma "questão de cultura".

Não seria questionável que estes estereótipos sejam explorados desta maneira na TV?

O Teste de Fidelidade, obviamente, não é a causa da desigualdade de gênero, mas, sim, um sintoma.

Mas o sucesso de programas como este parece ser um termômetro do que ainda é considerado aceitável na sociedade.

A BBC Brasil entrou em contato com a RedeTV para ouvir o posicionamento da empresa sobre o programa, mas a emissora disse que não iria se pronunciar.