A luta para morar

Foto: Eleanor Warnick/BBC Brasil Direito de imagem xx
Image caption Obra do artista urbano Acme ilustra dificuldade de moradia no morro do Vidigal

Outro dia recebi um e-mail do Ramon, um rapaz que conheci na comunidade do Vidigal, oferecendo alugar sua casa no morro para meus amigos ingleses.

Ele disse que a casa poderia acomodar até 25 pessoas, em três quartos. O que me surpreendeu mesmo foi o preço pedido por ele.

Cada "inquilino" deveria pagar por mês R$ 650!!!!

Há bem pouco tempo, esse valor equivalia no Vidigal ao aluguel mensal de uma casa como a de Ramon. Inteira!

Será que Ramon estava querendo se aproveitar dos "gringos"? Ou será que os preços tinham disparado sem que eu percebesse? Fui investigar.

Em pouco tempo vi que o preço pedido por Ramon não era absurdo.

O desequilíbrio entre oferta e procura faz os preços escalarem na velocidade de um foguete.

Programas sociais como Minha Casa Minha Vida não conseguem diminuir o deficit habitacional.

Segundo um estudo da Fundação João Pinheiro, 1,8 milhão de famílias, em apenas nove metrópoles brasileiras, estão sem residência adequada.

E, como se diz por aqui: Imagine com a Copa!

O aumento súbito da procura por acomodação na zona Sul do Rio elevou ainda mais o valor dos aluguéis.

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Image caption Moradores constroem em comunidade em morro da zona sul do Rio de Janeiro

Senti essa realidade na própria pele em janeiro quando cheguei por aqui. Passei meses procurando por um local para morar. Após dezenas de visitas frustradas a lugares que não correspondiam à descrição inicial, aluguei um quarto em Copacabana por R$1.500 por mês.

Na primeira noite percebi que tinha cometido um erro. A água que saía da torneira do filtro tinha um tom amarelado e as baratas passeavam livremente com a tranquilidade de veteranas moradoras.

Peguei uma micose no pé, creio que causada pelo péssimo estado de limpeza do banheiro.

Cerca de dois meses depois, policiais invadiram o apartamento à procura de um traficante de drogas que, segundo eles, estaria se escondendo no local.

Decidi que era o momento de mudar.

Curiosamente, dois dias depois que saí, outra menina alugou o quarto pagando o mesmo valor.

Isso dá uma boa medida da dificuldade que é encontrar um bom local para alugar no Rio, ainda mais durante esse período de alta procura criado pela Copa do Mundo.

Fato que pode ser facilmente confirmado se você olhar para a zona Sul do alto do morro do Vidigal.

A visão que se tem é a de prédios e mais prédios apinhados quase que uns sobre os outros lá na área do asfalto.

Subindo a encosta do morro, veem-se barracos, casas e mais prédios que dão continuidade ao emaranhado urbano, mostrando o quão valioso cada terreno é nesta parte da cidade, onde cada espaço disponível é logo ocupado.

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Image caption Estádio do Maracanã, palco da final da Copa do Mundo, na zona norte do Rio

Dá para compreender melhor a fúria que parte da população tem manifestado contra a Copa do Mundo.

Enquanto uns não têm onde viver, vítimas do tal deficit habitacional, apenas um estádio, o Maracanã, utiliza uma área de 124 mil metros quadrados, bem no coração da cidade.

E essa enorme área fica ociosa na maior parte do tempo, sendo usada apenas em dias de jogos.

Se pensarmos que situação parecida deve estar sendo repetida em pelo menos outras 11 cidades no Brasil, dá para perceber que o preço pago pelos brasileiros para ter a Copa em casa vai muito além do custo de construção desses estádios.

Não sei se isso tudo pode ser apenas impressão minha, de visitante.

Queria ouvir dos brasileiros o que acham do problema habitacional do Brasil. Estou exagerando? Ou meu post dá um bom retrato da realidade presente nas capitais brasileiras?