Com invasões e comoção, a Copa do Brasil virou a Copa da América do Sul

Estádio para cá, estádio para lá. Legado, obras, protestos. Falou-se sobre muita coisa neste ano que antecedeu à Copa do Mundo. Mas pouca gente se deu conta do que iria acontecer quando ela começasse. Enquanto muitos brasileiros faziam careta, dezenas de milhares de vecinos botaram o dedo no gatilho. Ou melhor, no mouse. Compraram ingressos, compraram passagens e vieram ver a Copa "deles".

É isso mesmo. Essa já deixou de ser a Copa do Mundo do Brasil. Esta é a Copa do Mundo da América do Sul.

Eu estive no Japão e na Coreia, onde percebia-se que muita gente não tinha nem conhecimento do jogo. Na África, as vuvuzelas nos faziam ouvir nada além delas. Na Alemanha-2006, a organização foi espetacular, havia ambiente nas ruas e nos estádios. Mas não havia a comoção nas arquibancadas que estamos vendo aqui. Jogos bons, atmosfera perfeita.

Os números não são oficiais e nem adianta pesquisar para onde foram os ingressos, porque estes estão trocando de mãos toda hora (como esperado). Mas fala-se em 20 mil chilenos na partida contra a Austrália, em Cuiabá. Em quase 50 mil colombianos em Belo Horizonte para o jogo contra a Grécia. E 40 mil argentinos dentro e outros tantos mil fora do Maracanã na estreia contra a Bósnia.

Os mexicanos também estão nessa. Não são sul-americanos, eu sei, mas também vieram em grande número - o que explica, talvez, o fato de os Estados Unidos serem o país, disparado, que mais comprou ingressos (exceto o Brasil). Há milhares de mexicanos e outros centro e sul-americanos que vivem nos Estados Unidos.

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Image caption Mexicanos estão fazendo festa no Nordeste; jogador Miguel Layun comemorou a atmosfera após vitória

Amigos jornalistas mostraram que, na noite de domingo, centenas de mexicanos se juntaram para cantar em frente ao hotel da seleção do país, na orla de Fortaleza. Alguns jogadores começaram a acenar das janelas. Até que o técnico Miguel Herrera resolveu levar todo mundo para um terraço no primeiro andar do hotel. Festa, interação, comoção, selfies e mais selfies dos jogadores mexicanos postadas por eles no Twitter. "É incrível o que estamos vivendo aqui", comentou o jogador Miguel Layun em sua conta. Isso é jogar em casa. Esse tipo de incentivo ganha jogo e é tão importante quanto o incentivo dentro do campo. Até mais importante, pois capta 100% da atenção dos jogadores.

Em Belo Horizonte, o colega Rodrigo Vessoni, do jornal Lance!, relata que, "nos primeiros dias, o povo mineiro estranhava aquela quantidade de estrangeiros, era possível ver os olhares de estranheza, aqueles comentários de boca de canto. Depois, não. Brasileiros e colombianos andavam nas ruas como se fossem velhos conhecidos, os locais se acostumaram com aquela invasão. Não tenho a menor dúvida de que a febre amarela mexeu financeiramente com a cidade. Bares e restaurantes lotados, táxis sempre ocupados, hotéis lotados".

Em São Paulo, os atletas do Brasil cantaram até o fim, apesar de o hino ter sido cortado na edição da Fifa. Já havíamos visto isso - e nos emocionado - na Copa das Confederações, não foi surpresa a repetição no Itaquerão, quinta passada. Mas quem esperava que isso fosse acontecer também nos hinos do Chile e da Colômbia? E a comoção com os gols-relâmpago destes dois países? Com o de Messi no Maracanã, o de Cavani em Fortaleza…

Comoção. Esta é a palavra que não sai da cabeça ao ver as imagens dos jogos dos países próximos na Copa. Afinal, são 36 anos sem que o continente recebesse um Mundial - e o de 1978 foi disputado em uma época de ditadura na Argentina, não viajava-se como hoje. Antes disso, Chile, 1962. É muito, muito, muito tempo. A gigantesca maioria das pessoas que vieram nunca haviam visto uma Copa e parecem ter a sensação de que nunca mais irão. É a experiência única de uma vida.

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Image caption Para Paco Suárez, brasileiro recebe visitantes como 'família'

O correspondente da BBC Brasil em Brasília, João Fellet, conheceu o equatoriano Paco Suárez, 81 anos de idade, antes do jogo contra a Suíça. Já foi em Copa em outros continentes, mas relata: "Aqui é diferente, é como se estivéssemos em casa. Os brasileiros nos recebem como se fôssemos da família".

Não estou em todos os lugares ao mesmo tempo mas, pelo que leio e vivi até agora, não há problemas com aeroportos, transportes nem nada do tipo. As pessoas que vêm para uma Copa do Mundo se preocupam menos com isso do que pensamos - o que não deveria tirar o peso da responsabilidade de organizar os estádios e cidades como se deveria. Acabou que muita gente que sim, se importa com isso, deixou de vir ao país. Mas essa é outra história. Os que cá estão dormem onde dá (vide fotos dos argentinos estatelados na areia de Copacabana), se viram para ir e vir, comer, etc.

Noto que o idioma é o grande defeito do Brasil como país que pretende (e tem tudo para) ser potência turística. Ninguém, ou quase ninguém, fala inglês, incluindo pessoas que trabalham em serviços em que o inglês deveria ser obrigação (hotéis, restaurantes em áreas turísticas, etc). Já servi de intérprete aqui em Salvador para muito torcedor da Holanda, Alemanha e outros países. Espanhol? Nada. Mas o espanhol é bastante mais parecido, então os "vecinos" estão se virando. Eles, assim como nós, estão dispostos a se fazer entender. Quando os dois tentam, chega-se lá. Aí entra nossa hospitalidade, um ponto fortíssimo que compensa a falta de idiomas.

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Image caption Argentinos 'tomaram conta' do Rio de Janeiro

Houve relatos de policiais usando spray de pimenta para dispersar argentinos que fechavam uma rua em Copacabana. De uma ou outra tensão dentro do Maracanã entre argentinos e brasileiros mais exaltados. Eles são mesmo torcedores mais "quentes", cantam, provocam. Mas convém não comprar o discurso de toda vida e ficar tratando argentino como inimigo, povo mau caráter, isso e aquilo. Das maiores bobagens que há por aqui é comprar essa ideia tosca. Sob o risco de problemas pequenos virarem algo mais preocupante.

Por toda a primeira fase, o cenário será o mesmo. Os jogos da Argentina, Chile e Colômbia estarão lotados de locais. Os de Uruguai, Equador e México um pouquinho menos, por vários fatores, mas ainda assim estes também estão jogando "em casa". O clima de Copa Libertadores da América está no ar, e a torcida brasileira é que tem que se coçar para não ficar para trás na empolgação - já que, como sabemos, o perfil de quem tem ingresso pra Copa não é o de gente acostumada a se esgoelar em estádio.

A partir das oitavas de final, é difícil saber o que vai acontecer. Nos outros Mundiais em que estive presente, notou-se um claro esvaziamento em termos de turistas. Pois muitos não "arriscam" ficar para além da fase de grupos. Mas será que acontecerá o mesmo por aqui?

A Copa parecia ser coisa nossa. Está claro que não é. É cosa nuestra.