Os 'timaços' de Chile, Colômbia e França e outras 5 lições da Copa

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Image caption A invasão das torcidas sul-americanas foi a grande história das duas primeiras rodadas do mundial

E acabam as duas primeiras rodadas da Copa do Mundo. Por enquanto, são seis classificados: Holanda, Chile, Colômbia, Costa Rica, Argentina e Bélgica. Outros três, Brasil, Alemanha e França, só não entram se acontecer alguma catástrofe improvável. Ou seja, mais da metade dos times do mata-mata estão definidos ou quase. Quem já não tem mais chances e só faz figuração na última rodada? Camarões, Espanha, Austrália, Inglaterra e Bósnia. A grande surpresa negativa aqui é a Espanha, claro.

A grande história das duas primeiras rodadas foi a invasão sul-americana aos estádios brasileiros. Chilenos e colombianos vieram em um número e com uma vontade de torcer que ninguém havia previsto, o que logicamente teve resultado para as duas seleções. Os argentinos também tomaram para eles o Maracanã e o Mineirão, mas o time não correspondeu. Messi, sim. Ainda que Messi tenha tirado dois coelhos da cartola, dois atacantes deixaram todo mundo de boca aberta: Luiz Suárez e Benzema. O francês foi muito bem nos dois jogos, poderia ter o dobro dos três gols que tem e é, até agora, o melhor da Copa.

Vamos dividir as 32 seleções em blocos? Consegui dividir em seis.

1) Os timaços: Chile, Colômbia e França.

Ganharam os dois jogos de forma consistente, sem deixar muitas dúvidas. E não pegaram duas babas, não. O Chile, se for primeiro do grupo e se as caravanas continuarem indo atrás do time, tem uma chance histórica de chegar à semifinal da Copa. Van Gaal chamou os atacantes chilenos de "fanáticos". Adorei a definição. O time chileno é um time de fanáticos, como seus torcedores. O treinador (Sampaoli) é brilhante, o estilo de jogo agrada e o único problema pode ser a defesa de baixinhos. A história é parecida para a Colômbia que, no entanto, terá um possível duelo contra Uruguai ou Itália nas oitavas. A França deve ir até as quartas, onde pode pegar a Alemanha. Um time que se encontrou depois do milagre da repescagem e que não está sentindo falta de Ribéry. Pode parecer até absurdo, mas às vezes a ausência de uma estrela ajuda times a atuarem de forma menos dependente e mais coletiva. A França prometia chegar forte na Copa. E chegou mesmo.

2) Ganham, mas deixam muitas dúvidas: Brasil, Argentina, Alemanha, Holanda, Bélgica e Costa Rica.

Brasil e Alemanha nem mesmo ganharam as duas partidas. A Argentina ganhou por causa de Messi. A Holanda goleou a Espanha por uma questão de encaixe, mas tem um futebol que nega suas origens e que penou para bater a Austrália. A Bélgica deixa dúvidas porque jogou mal os dois jogos, a Costa Rica, porque é difícil confiar em uma camisa tão pouco tradicional.

O Brasil sofre com criação, conexão entre linhas, capacidade de criar volume de jogo e apertar o adversário, além de parecer estar sentindo o peso da Copa em casa. A Alemanha não tem nenhum desses problemas. Mas segue sofrendo fisicamente e defensivamente - a linha de trás não inspira confiança alguma. A Argentina fez dois jogos ruins. Mas, se Messi decidir sempre… pronto, ele decidirá sempre e o time ganhará. Depender de um craque pode não ser ruim. Se ele decidir, claro.

3) Olho neles: Costa do Marfim, Uruguai, Itália, Estados Unidos e Croácia

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Image caption Apesar do time limitado e evelhecido do Uruguai, é díficil encontrar outro número 9 na Copa como Suárez

Costa do Marfim e Estados Unidos muito possivelmente passarão com empates e teriam rivais "ganháveis" nas oitavas. Quem sair vivo de Uruguai x Itália sairá forte para o mata-mata. O Uruguai tem um time claramente limitado e envelhecido, mas será que existe um número 9 na Copa capaz de fazer as coisas que Luiz Suárez faz? E a Itália é a Itália. Sempre desconfie contra os pequenos, nunca desconfie contra os grandes. Não tem jogo fácil quando a Itália está em campo - nem para ela e nunca para o rival. A Croácia jogou muito bem contra o Brasil (lembram do árbitro japonês?) e massacrou Camarões. Se ganhar do México e avançar, será um rival duro nas oitavas (o palpite deste blog, no entanto, é que não vencerá o México no calor de Recife e "fora de casa". A Croácia é mais time, mas acredito no subjetivo fator geográfico).

4) Prometem pouco: México, Suíça, Nigéria, Portugal, Gana, Rússia e Argélia

Alguns destes times passarão de fase. Mas é difícil acreditar que algum deles chegue às quartas de final. A Argélia empolgou com a primeira vitória, mas deve ter de enfrentar a Alemanha se segurar a Rússia (que fez dois jogos horrorosos, à la Capello). Portugal não é um time tão ruim como mostra a campanha, mas ter tantos lesionados e um Cristiano Ronaldo meia bomba é dose para leão. Não haverá milagre.

5) Jogaram com dignidade: Austrália, Equador e Irã

Dos três, somente a Austrália está eliminada. Mas dificilmente os outros dois passarão - ambos tomaram gol no final que doeram demais e terão, como consequência, a eliminação. Saem de cabeça alta da competição.

6) Vieram pra quê? Espanha, Camarões, Grécia, Japão, Inglaterra, Honduras, Bósnia-Herzegovina e Coreia do Sul

Quase criei uma categoria papelão só para a Espanha. Já falei dela em outro post e apenas lamento que Xavi não terá uma despedida digna como merece. A Inglaterra pode ser considerada uma decepção? Não. Eles mesmos já contavam com a eliminação prematura pela dificuldade do grupo. Fica a enésima lição, no entanto, para um país que continua achando que tem uma seleção tão boa ou quase tão boa quanto sua fantástica liga. Um pouquinho (ou um muitinho) de humildade faria bem. Eu esperava bastante mais de Japão e Bósnia, mas não esperava absolutamente nada mais de Camarões, Honduras e Coreia.