Coluna do Tim Vickery: 'Achei que fosse apanhar na rua por críticas ao Brasil'

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Image caption Policiais revistam jovens em ação para supostamente prevenir arrastões; 'Reforça-se a imagem de um país dividido, histérico, violento e agressivo', diz colunista

As águas de março fecham o verão, mas hoje em dia a estação abre com um dilúvio de depressão: os arrastões nas praias do Rio de Janeiro que viraram um evento comum no primeiro fim de semana de calor tropical depois do inverno.

Grupos de jovens do subúrbio tentando roubar e gangues de vigilantes querendo linchar. Reforça-se a imagem que tem sido marcante, pelo menos desde a polarizada campanha eleitoral do ano passado, de um país dividido, histérico, violento e agressivo, onde a possibilidade de dialogo nem existe. Será mesmo?

Felizmente, posso afirmar que, embora desvalorizada, a moeda tem um outro lado.

Semana passada, fui premiado no evento do Comunique-se, comparado ao Oscar do jornalismo brasileiro. Numa votação de colegas de profissão, ganhei na categoria de "correspondente estrangeiro" pela terceira vez, e, como consequência, recebi o título de "mestre de jornalismo".

Acredito que devo esta honra extraordinária em grande parte à visibilidade que tenho na televisão brasileira, aparecendo com frequência principalmente na Redação SporTV, e também na TV Brasil e TV Esporte Interativo.

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Image caption Vickery no Rio: 'Intenção desta coluna é dialogar com os inúmeros brasileiros que – a despeito dessa tão alardeada polarização que o Brasil vive hoje – estão, sim, dispostos a dialogar – a falar e ouvir sobre seu país'

Sou convencido do valor deste tipo de intercâmbio internacional, mas tenho que confessar que, quando comecei a fazer televisão no Brasil de maneira regular, ficava com um certo medo. Um estrangeiro chegando de paraquedas no país pentacampeão do mundo para distribuir opiniões e críticas sobre o futebol brasileiro (e também sobre a sociedade brasileira)! Achei que fosse apanhar na rua.

Bem, não apanhei ainda. Imagino que seja somente uma questão de tempo. Mas, para minha grata surpresa, vi que poucos ficaram ofendidos com a minha presença, e sinto uma aceitação no meio que, francamente, nunca cogitara possível.

E não acho que isso tenha a ver com o tão citado (talvez citado demais) "complexo de vira-lata". Acho que ajuda o fato de eu ser ciente da insignificância das minhas opiniões, e a audiência, por sua vez, reconhecer isso. Mas, dentro de tal insignificância, nunca moderei uma opinião por medo de ofender. Nesta semana, por exemplo, lancei um ataque contra a expressão "quem é rei nunca perde a majestade". Detesto. Estupidez tentando se vestir de sabedoria. Única coisa que revela é uma tara local por hierarquia.

Por mais que o ego batalhe no sentido oposto, a intenção desta coluna não é ficar centrado em mim. É dialogar com os inúmeros brasileiros que – a despeito dessa tão alardeada polarização que o Brasil vive hoje – estão, sim, dispostos a dialogar – a falar e ouvir sobre seu país.

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Image caption Colunista ao receber Prêmio Comunique-se; a partir desta sexta-feira, ele passa a assinar coluna quinzenal na BBC Brasil e no UOL

E nisso eu tenho experiência. Dialogar – e não pontificar – é minha especialidade, minha paixão. E, no Brasil, as conversas surgem a todo momento, geralmente, porque a pessoa – do executivo ao gari – me reconhecem da TV. E o transporte público é o palco mais comum.

E logo saímos do futebol para falar do Brasil: desde a base industrial de Joinville até os problemas da Polícia Militar na transição para a democracia (só para citar alguns temas recentes de bate-papo). E tudo num clima ameno, sem temporais de hostilidade nem raios de raiva.

Acredito que a chave para entender uma pessoa ou uma cultura seja o seguinte: identificar as contradições internas e analisar a tensão entre elas. Mas tenho que admitir que, depois de 21 anos no Brasil, ainda há coisas que me deixam perplexo, nós que não consigo desatar. Posso ter sido consagrado como "mestre do jornalismo", mas ainda sou um estagiário em Brasil. Não sou capaz de entender, por exemplo, como um país tão cordial e humano pode ser tão intolerante e desumano. O Brasil continua complexo, contraditório, e fascinante.

*A partir desta sexta-feira, o premiado jornalista britânico Tim Vickery, que vive no Rio de Janeiro desde 1994, lança na BBC Brasil (com publicação simultânea no UOL) uma coluna quinzenal sobre a sociedade brasileira.

Formado em História e Política pela Universidade de Warwick, Vickery é um dos poucos jornalistas estrangeiros a ter uma carreira verdadeiramente bilíngue, com colaborações regulares tanto para veículos brasileiros quanto estrangeiros, sobretudo britânicos.

Tim Vickery tem uma colaboração de longa data com a BBC, tendo trabalhado para diferentes partes da organização na cobertura do futebol sul-americano. Nesta coluna, que é lançada em um momento em que o Brasil volta aos holofotes internacionais por conta da Olímpiada de 2016, ele vai falar menos de esporte e mais sobre a sociedade brasileira.