Ex-aliado de Dilma no PMDB, ministro diz 'trabalhar pelo sucesso' de Temer

Em entrevista à BBC em Londres, Leonardo Picciani minimizou preocupações de atletas sobre epidemia do vírus da Zika durante Olimpíada Direito de imagem Roberto Castro/ME
Image caption Leonardo Picciani minimizou preocupação de atletas com o vírus Zika durante Olimpíada

Único ministro do novo governo a votar, como parlamentar, contra a abertura do processo de impeachment contra a presidente afastada Dilma Rousseff, Leonardo Picciani (Esporte) afirma agora trabalhar pelo "sucesso do presidente Temer", uma vez que a "situação mudou".

Líder do PMDB na Câmara na época em que os deputados decidiram dar aval ao início da tramitação no Senado, ele seguiu a determinação do partido e orientou sua bancada a votar contra a petista. Ao subir à tribuna, porém, manifestou-se contra o processo.

"Tenho profundo respeito pela presidente Dilma Rousseff. Votei contra o impeachment porque, como advogado, não considerei que havia fundamento jurídico", disse ele à BBC Brasil nesta segunda-feira, após almoço na residência oficial do embaixador brasileiro em Londres.

"Meu objetivo agora é trabalhar pelo sucesso do presidente Temer", acrescentou.

A capital britânica foi a primeira parada da viagem oficial do ministro ao exterior. No roteiro, estão ainda Nova York e Washington, nos Estados Unidos.

Um dos objetivos das visitas é tentar amenizar, à imprensa internacional, as preocupações com a realização dos Jogos Olímpicos do Rio, em agosto - atletas de diferentes países vêm expressando temor de contrair o vírus Zika durante a competição.

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Image caption Picciani diz ter "profundo respeito" por Dilma

'A situação mudou'

Questionado sobre permanecer "aliado" de Dilma, Picciani afirmou que "a situação mudou". Ele disse ainda não acreditar que a petista venha a ser reconduzida ao cargo ao fim do julgamento no Senado.

"Tentei ajudar a presidente o quanto pude. Mas a situação mudou. Temos um novo governo agora."

O ministro também falou sobre o convite feito ao ex-deputado estadual mineiro Gustavo Perrella para ocupar o posto de secretário Nacional de Futebol e de Defesa dos Direitos do Torcedor.

Pouco depois de ser escolhido por Temer para a pasta, Picciani havia afirmado que não nomearia integrantes da chamada "bancada da bola".

O pai do novo secretário, o senador Zezé Perrella, é ex-dirigente do Cruzeiro. Ambos ganharam destaque em novembro de 2013, quando a Polícia Federal apreendeu meia tonelada de cocaína em um helicóptero pertencente à família em uma fazenda de Afonso Cláudio (ES).

A Justiça entendeu que a família Perrella não estava envolvida no caso.

"Foi uma decisão profissional. Há poucas pessoas com as qualificações de Gustavo. Fiquei impressionado com o trabalho dele ao reduzir a violência nos estádios", elogiou Picciani. "Essa coisa da bancada da bola foi invenção da imprensa. Não há bancada da bola."

O peemedebista ressaltou sua decisão de manter "grande parte do quadro técnico" da gestão anterior do ministério.

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Image caption Londres é primeira parada de Picciani em viagem oficial que ainda vai incluir Nova York e Washington

Zika

O ministro minimizou as preocupações de parte da comunidade internacional sobre a realização dos jogos em meio à epidemia de zika.

"Tenho a convicção de que os atletas estarão seguros pelas providências que estão sendo tomadas pelas nossas autoridades de saúde, seguindo as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Todos os mecanismos de prevenção e de proteção estarão garantidos", disse Picciani.

"É importante lembrar que o Zika não é uma exclusividade do Brasil. A população brasileira representa apenas 15% das pessoas expostas ao vírus", acrescentou.

Picciani lembrou que, além das medidas de controle e prevenção tomadas pelo governo, o mês de agosto, período de realização do evento, "tem historicamente menor incidência" de casos.

"Tivemos 4 mil casos em abril. Em maio, apenas 700. No ano passado, em agosto foram apenas 22 casos notificados. Esperamos zerar os registros", calculou.

"Diria a qualquer atleta ou cidadão que pode vir com absoluta tranquilidade porque o Rio de Janeiro e o Brasil se preparam para esse momento", acrescentou.

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Image caption Ministro do Esporte almoçou com embaixador brasileiro em Londres, Eduardo dos Santos

No fim do mês passado, um grupo formado por mais de 200 cientistas internacionais enviou uma carta aberta à OMS pedindo que o evento seja transferido ou adiado em decorrência do surto da doença.

A organização, que recentemente classificou o vírus como uma emergência global de saúde pública, comentou a carta.

Segundo nota enviada pelo órgão, baseado nas informações atuais, "cancelar ou mudar o local da Olimpíada de 2016 não irá alterar significativamente a propagação internacional do vírus Zika".

Crise política e Paralimpíada

Picciani afirmou que a mudança de governo não impacta negativamente a realização dos jogos.

Ele citou uma pesquisa recente conduzida pelo Ministério dos Esportes, segundo a qual 66% da população apoia a realização dos jogos, enquanto 78,7% declaram acreditar que a mudança de governo não prejudicará a Olimpíada.

"Tivemos a mudança de governo por uma circunstância política do país. O Brasil está solucionando a crise política dentro da institucionalidade, dentro do que prevê a Constituição, dando uma demonstração de que as instituições no Brasil são sólidas, capazes de resolver crises eventuais como a que vivemos", afirmou.

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Image caption Picciani afirmou acreditar que os Jogos vão trazer "várias oportunidades" para o Rio

"Creio que o projeto olímpico que demandou sete anos de preparação foi absolutamente bem feito, organizado e bem executado", acrescentou.

Questionado, por outro lado, sobre o ritmo de venda dos ingressos dos Jogos Paralímpicos ─ apenas 30% foram vendidas até agora, Picciani disse não ter "dúvida" de que o evento será um "sucesso absoluto".

"A Prefeitura do Rio comprou um lote grande de ingressos para distribuir entre alunos da rede pública e funcionários. Já o Ministério dos Esportes vai iniciar nos próximos dias uma série de campanhas publicitárias, com atletas paralímpicos, para encorajar a venda", assinalou.

"Há um traço cultural do brasileiro de deixar tudo para a última hora. Mas acredito que todos os ingressos serão vendidos", acrescentou.

Legado

Sobre o legado da Olimpíada para a cidade do Rio, Picciani afirmou acreditar que os jogos vão trazer "várias oportunidades".

"Haverá o legado físico ─ como a revitalização da área portuária e a expansão do metrô. Mas no âmbito nacional teremos a oportunidade de difundir o esporte ainda mais. E em várias modalidades diferentes. Seja o esporte de alto rendimento, seja o esporte como um fator de inclusão social, como um fator educacional", afirmou.

Questionado pela reportagem da BBC sobre promessas feitas e não materializadas ─ principalmente nas áreas mais pobres da cidade, como a instalação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) no Complexo da Maré, conjunto de favelas na região norte da cidade, Picciani disse que "todas as metas foram cumpridas".

"Houve um grande avanço, mas ainda temos desafios pela frente, como a despoluição da baía de Guanabara", concluiu.

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