Quem é João Doria, o novo prefeito de São Paulo

Doria toma suco durante campanha política em São Paulo Direito de imagem Divulgação
Image caption Candidato João Doria diz que costuma frequentar mercadões populares na cidade

João Doria começa falando de futebol. Durante um compromisso de campanha no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, diz que joga uma "pelada" toda semana. "Paulinho (da Força) é bom de bola", comenta, antes de alguém gritar um "mais ou menos, mais ou menos" seguido de risinhos.

O então candidato do PSDB - que acabou eleito prefeito de São Paulo no primeiro turno, com 53% dos votos - deixa a mesa que divide com representantes da Força Sindical para contar sua história. De pé, em meio ao público, apresenta-se como filho de deputado federal cassado pelo golpe militar de 1964.

Diz que João Agripino Doria era um nordestino "orgulhoso de sua terra". Um baiano que se mudou para o Sudeste e venceu, tornando-se publicitário de sucesso. Lembra também do "período mais agudo de sua vida" quando, no exílio, o salário do pai como professor da Universidade de Sorbonne, em Paris, era menor que as despesas da família.

Conta que, de volta ao Brasil, começou a trabalhar aos 13 anos, em uma agência onde seu pai tinha sido diretor. "Há 45 anos sou trabalhador, com muito orgulho." Uma salva de palmas reverbera no auditório.

Com a oratória afiada pela experiência como apresentador de TV, Doria, que liderou as pesquisas de intenção de voto na reta final da campanha, arranca risos e sinais de aprovação dos sindicalistas.

Afirma que não é político, e sim gestor, que vai doar o salário e não quer reeleição. Por ter um bom patrimônio, diz, não precisa se envolver com corrupção. Fala em gerir a capital paulista com mais eficiência, como uma empresa, revendo a aplicação dos recursos para saúde e privatizando o Pacaembu e o Autódromo de Interlagos.

Image caption Doria em ato de campanha no Sindicato dos Metalúrgicos de SP

"O histórico dele é bom, de onde veio e onde chegou. O lado trabalhador é muito positivo", diz Adenaldo Ferreira, um dos diretores do sindicato, após o discurso.

Apesar dos sinais de concordância, a postura de Doria não agrada a todos. Parte da plateia critica sua tentativa de se caracterizar como alheio à política.

"O cenário político tem muitos erros, mas devemos corrigir, não negar tudo. Não podemos achar que eliminar a política da história da humanidade vai resolver. Todos aqui somos agentes políticos", afirma Maria Nogueira, outra diretora do sindicato.

Três horas de sono

Entre um compromisso e outro, Doria aceitou conversar com a BBC Brasil por telefone enquanto se deslocava de carro pela capital paulista.

O empresário diz que dorme três horas por noite "há muitos anos" devido ao excesso de trabalho - o que também costuma citar no programa eleitoral.

"Não recomendo a ninguém, mas essa é a forma que utilizo para ser produtivo e muito determinado."

Disse ainda frequentar mercados da cidade, como os de Pinheiros e da Lapa, e descreve encontros com chefes de cozinha em busca de produtos orgânicos. "(Os mercados) têm vida e um coração pulsante muito interessante, que reflete o sentimento da cidade de São Paulo."

Direito de imagem Divulgação
Image caption Ao ser questionado se vê sua história de vida semelhante a de um pobre, Doria diz que não discrimina ninguém

Propostas

Entre suas propostas, João Doria promete manter e ampliar medidas de gestões anteriores, como o Centro de Educação Unificada (CEU). Por outro lado, destaca que irá revogar imediatamente a redução da velocidade máxima para veículos nas marginais, marca da gestão Fernando Haddad (PT).

"Vamos alterar a velocidade nas marginais na semana seguinte à posse. Vamos fazer o que o código de trânsito já prevê: vias expressas de 90km/h, 70km/h e 60km/h."

A ideia foi a mais aplaudida no ato de campanha no Sindicato dos Metalúrgicos, quando o empresário negou que haja relação entre velocidade e aumento de acidentes.

Questionado pela BBC Brasil sobre as 315 mortes a menos que o prefeito Fernando Haddad associa à medida, o candidato desconversa.

"Não haverá genocídio. Vamos fazer o que a prefeitura não fez: programas de educação de trânsito usando rádio, televisão, internet e escolas públicas para que as pessoas compreendam e respeitem as regras."

Direito de imagem Ciete Silverio/ A2D
Image caption Doria elogia Poupatempo, programa da gestão de Alckmin, seu padrinho político

Outro projeto de Doria é ampliar a educação em tempo integral. "Para isso, vamos ampliar os CEUs porque acho uma ideia boa. Esse espaço inclui cultura, esporte e ainda vamos servir cinco refeições por dia."

Sempre que pode, ele reafirma que não é político e que não fará gestão pensando na reeleição. "Sou gestor e empresário, embora respeite os políticos. Não vou começar meu primeiro dia pensando como vou ser reeleito, mas em como serei um bom prefeito."

Diz que pretende fazer um mandato "padrão Poupatempo", programa do governo Geraldo Alckmin (PSDB), seu padrinho político. "Vamos fazer o serviço com eficiência e rapidez, além de trabalhar em dobro."

Só João

Em agendas públicas e entrevistas, a exemplo do ato com sindicalistas, Doria procurou se afastar da imagem de candidato de elite.

Na conversa com a BBC Brasil, na semana que antecedeu o primeiro - e definitivo - turno, diz que passou por dificuldades na vida e "ralou muito" para chegar onde está. Seus assessores e funcionários o chamam de João, como também é apresentado nos jingles de campanha.

Questionado sobre a relação de sua história com a de pais de família que vivem com um salário mínimo, Doria diz que respeita a todos.

"Eu vejo sem discriminação. Eu nunca discriminei os pobres nem os ricos. Não há o bem ou mal. Não há o rico ou o pobre no ponto de vista da diversidade. Temos que melhorar a qualidade de vida no ponto de vista da cidade."

Ele diz que não quer "socializar a cidade pela saúde e pela pobreza", mas "pela riqueza e oportunidade".

"Nossa gestão vai ser feita de fora para dentro, priorizando bairros periféricos que circundam a cidade para oferecer o que precisam prioritariamente: oportunidade. Na saúde, educação, habitação, transporte, segurança pública, emprego e empreendedorismo."

Direito de imagem Rafael Ribeiro/ CBF
Image caption Empresário diz que não discrimina pobres nem ricos

Campos do Jordão

Nas últimas semanas, um vídeo de João Doria viralizou nas redes sociais após ele ser entrevistado pelo jornalista César Tralli durante o "SPTV", da Rede Globo.

O jornalista perguntou por que Doria não devolvia um terreno público mesmo após decisão da Justiça nesse sentido. O candidato explicou que se tratava de uma viela sanitária e que pagou por ela. Dias depois, devolveu o terreno.

"Eu respeito o César Tralli. Ele é um bom jornalista e foi meu funcionário, trabalhou comigo. Conheço bem o César Tralli, mas acho que ele poderia ter dedicado mais tempo aos temas da cidade. Mesmo assim, não faço nenhuma condenação a ele", disse.

Antes de encerrar a entrevista, a BBC Brasil indagou Doria sobre uma reportagem publicada em maio de 2005 pela Veja São Paulo, que relata que ele mandava seus funcionários limparem sapatos de hóspedes de sua casa em Campos do Jordão.

"Não, não. Vamos falar de coisas sérias. Estamos em campanha. Vamos falar de coisas sérias. Nunca aconteceu. Vamos falar de coisas sérias. Falar de temas da cidade. Obrigado, viu? Um abraço."

E desligou.

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