'Descrença gerada por protestos de 2013 e Lava Jato' levam SP a abstenção recorde

Sujeira deixada por propaganda eleitoral em São Paulo Direito de imagem Getty Images
Image caption Em São Paulo, quase 2 milhões de eleitores não foram às urnas

A cidade de São Paulo elegeu um prefeito sem a necessidade de segundo turno pela primeira vez desde 1992 - o candidato do PSDB, João Doria, venceu com surpreendentes 53,29% dos votos válidos.

Mas outros números também chamaram a atenção: o de abstenções (21,84%) e de votos brancos (5,29%) e nulos (11,35%), que juntos somam 38,48% do eleitorado apto a votar.

Trata-se de uma alta nas ausências em relação às últimas eleições municipais, em 2012, quando o índice de abstenções já havia batido recorde: 19,99%. Os votos brancos no primeiro turno daquele ano somaram 5,4%, e os nulos, 7,35%.

O percentual superou, inclusive, a votação do segundo colocado no pleito paulistano - o atual prefeito, Fernando Haddad (PT), que teve 16,70% dos votos válidos.

O fenômeno se repete na segunda maior cidade do país, o Rio de Janeiro. Na capital fluminense, as abstenções somaram 24,28%, os brancos chegaram a 5,5% e os nulos, 12,76% - um total de 42,54%. Em 2012, os índices tinham sido, respectivamente, de 20,45%, 5% e 8%.

Para o professor de gestão de políticas públicas da USP Pablo Ortellado, dois fenômenos explicam o alto número de eleitores que rejeitaram o processo político neste ano: a onda de manifestações de 2013 e o impacto das investigações da operação Lava Jato.

"Estamos vivendo uma profunda crise do sistema de representação por causa de dois processos. Junho de 2013, com a grande mobilização da sociedade brasileira rejeitando o sistema de representação e demandando direitos, e esse escândalo da Lava Jato, que contaminou e colocou sob suspeita todo o sistema politico partidário. Todos ficaram sob suspeita desde o início das investigações", disse.

Para o professor, a vitória de Doria no primeiro turno paulistano é um reflexo do mesmo fenômeno, já que sua campanha teria sido baseada completamente no discurso da "antipolítica".

"O resultado das urnas em São Paulo foi uma demonstração eloquente do discurso da antipolítica. Essa é uma rejeição natural - eu ficaria muito preocupado se houvesse uma crença no sistema político depois de tudo o que aconteceu nesses últimos três anos", afirmou o professor.