A polêmica sobre escravidão que levou a Universidade de Yale a mudar o nome de um de seus institutos

Fachada da "Calhoun College" Direito de imagem AP
Image caption Inscrições no prédio do Calhoun College em homenagem ao ex-vice-presidente dos EUA John C. Calhoun, fervoroso defensor da supremacia branca e da escravidão

Após anos de discussão, polêmica e protestos, a prestigiosa Universidade de Yale, nos Estados Unidos, anunciou que mudará o nome de um de seus institutos que homenageava um ex-vice-presidente americano escravocrata e supremacista branco.

O Calhoun College, uma referência a John Calhoun, ex-senador da Carolina do Norte e vice-presidente dos Estados Unidos entre 1825 e 1832, passou a se chamar Grace Murray Hopper College, em homenagem a uma das mais importantes mulheres cientistas, pioneira na tecnologia da computação.

John Calhoun, que se formou em Yale, foi senhor de escravos e dedicou boa parte de sua vida política à expansão da escravidão no sul dos Estados Unidos.

A decisão de mudar o nome do College vem após vários protestos de alunos, que desde 2015 vinham realizando manifestações exigindo a alteração.

Estudantes de Direito chegaram a criar uma petição online pedindo a substituição. Na última semana, quatro manifestantes que protestavam pelo mesmo motivo foram presos na região por bloquearem o tráfego.

Direito de imagem AP
Image caption Instituição ganhará nome de Grace Hopper, matemática pioneira na tecnologia da computação

No ano passado, uma funcionária negra de uma das cantinas de Yale, Corey Menafree, quebrou - com uma escova - vitrais do Calhoun College com imagens de escravos. Menafree disse que as figuras eram ofensivas. A universidade acabou retirando as queixas contra a funcionária e ela foi liberada.

Em abril de 2016, o reitor da universidade, Peter Salovey, disse que, apesar dos protestos, manteria o nome Calhoun. Em agosto, porém, mudou de ideia e nomeou um grupo de especialistas para discutir o assunto.

Ao anunciar, na semana passada, a troca de nome, Salovey disse que resiste em apagar a história da universidade: "Resistimos a renomear prédios de nosso campus. Durante todo esse tempo fiquei, e ainda estou, preocupado em não fazer algo que acabe apagando nossa história. Por isso, as alterações de nomes continuarão sendo uma exceção".

Ele explicou que a decisão foi baseada na constatação de que o legado de Calhoun era "contrário aos valores e à missão da universidade".

Direito de imagem AP
Image caption Quatro pessoas foram presas este mês por bloquearem o trânsito em protesto pela mudança de nome do Calhoun College

"John Calhoun foi um defensor da supremacia branca e defensor fervoroso da escravidão como um bem positivo. Alguém cujas opiniões se tornaram mais rígidas ao longo da vida e que morreu basicamente criticando a Declaração de Independência e a ênfase que o documento põe sobre o princípio de igualdade entre os homens ressaltando que todos são criados iguais", disse o reitor de Yale.

Pioneira

A nova homenageada, Grace Hopper, concluiu um doutorado em matemática na Universidade de Yale em 1930 e outro em física matemática em 1934.

Depois de ensinar matemática na Vassar College, em Nova Iorque, Hopper entrou para a Marinha dos Estados Unidos, onde obteve a patente de contra-almirante e "usou seus conhecimentos de matemática para lutar contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial", segundo um comunicado da universidade.

Hopper se juntou à equipe de ciência da computação liderada pelo comandante Howard Aiken em Harvard e foi a primeira programadora a usar o "Harvard Mark I", o computador eletromecânico construído pela IBM (International Business Machines Corporation, multinacional de informática que já foi a maior fabricante mundial de computadores) - e enviado para Harvard em 1944.

Uma linguagem de programação criada por Hopper é considerada precursora da linguagem COBOL (Common Business-Oriented Language), criada na década de 50 na busca por uma linguagem de programação universal voltada para o comércio.

No ano passado, o então presidente Barack Obama concedeu a Grace Hopper, em homenagem póstuma, a maior condecoração dada a civis nos Estados Unidos - a Medalha Presidencial da Liberdade.

Direito de imagem Universidade de Harvard
Image caption Grace Hopper se juntou à equipe de cientistas de computação de Harvard liderada pelo comandante Howard Aiken (linha inferior, centro); Hopper foi a primeira programadora do Harvard Mark 1 (em segundo plano na foto), o primeiro computador eletromecânico, construído na IBM e enviado para Harvard em 1944, que tinha cerca de 800 quilômetros de cabos.
Direito de imagem AP
Image caption Grace Hopper em 1986, com 80 anos. Ela iniciou sua carreira militar em plena Segunda Guerra Mundial

O reitor de Yale disse que, apesar da mudança de nome do College, outras referências a Calhoun não foram removidas do campus, como uma estátua em uma torre conhecida como Harkness Tower.

Para alguns alunos, renomear o College não é suficiente. "Essa mudança pouco avança na direção de uma reconciliação, tendo em vista não só o legado de Calhoun, como também as associações de Yale com a escravidão", disse Chris Rabb, educador e fundador de uma rede de ex-alunos negros.

Diversas universidades e colleges estabelecidos nos séculos 18 e 19 nos Estados Unidos tiveram algum tipo de ligação com a escravidão. Alguns dos reitores de Yale, naquela época, aceitaram receber grandes doações de famílias ricas que possuíam escravos.

Direito de imagem EPA
Image caption O presidente de Yale disse que não serão retiradas as outras referências a Calhoun existentes no campus, como uma estátua da Harkness Tower, que pode ser vista à direita acima

Tópicos relacionados