A busca por emprego do homem que tem apenas uma experiência no currículo, mas trabalha desde os 9

Ronaldo Nascimento Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Ronaldo teve registro em carteira como guarda de trânsito

Ronaldo do Nascimento já deixou mais de 350 currículos Rio de Janeiro afora. O número é uma estimativa para dar medida à busca incessante por trabalho ao longo dos últimos dois anos, que o levou cedinho na última quarta-feira para sua visita semanal ao Sistema Nacional de Emprego (Sine), no centro da cidade, atrás de vagas que andam cada vez mais escassas.

Mais uma vez, voltou para casa sem nada. Ele acha que a idade atrapalha, mas dá "graças a Deus" por ter chegado aos 57 anos. "Porque quase ninguém chega na minha idade. Antes vira vagabundo e morre."

Toda semana Ronaldo se junta às dezenas de desempregados que chegam cedo à Superintendência Regional do Ministério do Trabalho, no Centro, na esperança de conseguir uma oportunidade através do Sine, serviço que faz a intermediação entre pessoas buscando emprego e empresas oferecendo vagas.

Com o desemprego tendo chegado ao nível mais alto já visto no Brasil - 12,6%, segundo o índice mais recente do IBGE - a busca está cada vez mais difícil.

Em 2013, o Sine pôde oferecer 329 mil vagas para trabalhadores no Estado do Rio. No ano passado, disponibilizou quase um quinto disso: 72 mil, de acordo com levantamento feito pelo Ministério do Trabalho a pedido da BBC Brasil.

Ronaldo tira uma folha de papel da bolsa desbotada. É a cópia do currículo que sempre leva consigo, incluindo sua foto 3x4 em impressão colorida, sua escolaridade - ensino fundamental completo - e uma breve descrição de seus objetivos profissionais, onde afirma estar "sempre disponível a aprender e desempenhar o trabalho da melhor forma possível".

Sob "experiência profissional" há apenas um item. "Cargo: Guarda de Trânsito".

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Image caption No currículo de Ronaldo, apenas uma experiência

Foi este seu último emprego. Ele passou um ano e meio apitando para motoristas com o colete fosforescente que rendeu o apelido de "verdinhos" aos agentes de trânsito terceirizados pela prefeitura. Até que a empresa, Via Rio, decidiu mandar embora 240 pessoas. "Aí fui no mesmo barco. Era tudo trabalhador e pai de família", lamenta.

Mas Ronaldo diz trabalhar desde os 9 anos, quando começou a carregar cimento e tijolo em obras, apressando o fortalecimento do corpo de menino. "Eu tinha que ajudar a minha mãe. Não tinha mais quem ajudasse." Isso era em Irajá, na zona norte do Rio. "Ainda era uma roça naquela época. A gente ia pegar areia dentro do rio", lembra.

O primeiro emprego com carteira assinada foi com 15 ou 16 anos, em uma editora. Depois disso, fez um pouco de tudo - trabalhou na roça, capinou, foi segurança, fez bicos.

Ronaldo tem dois filhos e é separado. "E que mulher vai quer homem duro?" Atualmente, sobrevive graças à ajuda da irmã mais velha.

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Image caption O desemprego já atinge 12,6% da população

Maria Lucinda Soares tem 60 anos e vem segurando as pontas com os R$ 1.080 reais que ganha "tomando conta de uma senhorinha" de 86 anos. Ela paga o aluguel do apartamento que divide com o irmão no bairro do Catumbi, perto do Sambódromo.

"Eu ajudo ele com o pouco que eu posso", diz Lucinda. É ela quem atende o número de telefone fixo deixado como contato no currículo de Ronaldo, que atualmente não tem celular. O jeito foi dar o número da casa da "senhorinha", onde a irmã mora durante a semana.

Ela torce pelo dia em que poderá dar o recado tão aguardado pelo irmão. "Se você souber de alguma oportunidade, liga para a gente", pede à repórter antes de desligar. "Temos um primo de 27 anos que também está atrás de emprego."

Ronaldo diz que procura trabalho em qualquer área. "Pode ser de acompanhante, caseiro. Também sei trabalhar na cozinha, fazer comida. Aprendi com mamãe."

Enquanto aguardava sua vez no atendimento do Sine, ele se revoltou ao ver um senhor idoso saindo do prédio, caminhando com dificuldade, com ajuda da bengala de um lado e de uma jovem parente do outro. "Imagina chegar a essa idade e ainda ter que vir aqui."

A corrupção e a estrutura social no Brasil são mesmo revoltantes, conclui. "Aqui é assim. O pobre faz o rico mais rico. E o rico faz o pobre mais pobre."

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