Suíça lista Lava Jato entre os casos mais importantes que investiga - entenda o motivo

Manifestação a favor da operação Lava Jato Direito de imagem AFP
Image caption Lava Jato é um dos principais casos investigados não só no Brasil, mas pela Suíça

O Ministério Público da Suíça divulgou nesta quarta seu relatório anual, no qual resumiu os principais casos em que atuou em 2016. Entre as investigações destacadas, estão o escândalo da Fifa (Federação Internacional de Futebol) e contravenções intercontinentais na Malásia e Tailândia, mas também o tema que tem dominado as manchetes brasileiras nos últimos anos: a operação Lava Jato.

No ano passado, a maioria dos 441 casos investigados pelo Ministério Público Suíço foi de lavagem de dinheiro - há 231 processos em aberto sob a suspeita desse tipo de delito. Corrupção internacional e outros crimes econômicos aparecem em segundo e terceiro lugar entre as mais comuns.

O destaque especial dado à Lava Jato é explicado por sua extensão, impressionante quando considerados o volume de recursos movimentados e sua amplitude.

Segundo a Suíça, os contratos fraudulentos ligados à Petrobras, Odebrecht e outras empresas levaram ao congelamento de mais de R$ 3 bilhões, escondidos em cerca de 1 mil contas irregulares. Do total, 200 milhões de francos (cerca de R$ 620 milhões) já foram devolvidos ao Brasil.

As investigações de corrupção do caso envolvem pessoas físicas e empresas nas áreas de construção civil, petroquímica, energia, engenharia e infraestrutura, lembra o levantamento.

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Image caption Lava Jato é tratada como prioridade pela Promotoria suíça, ao lado do escândalo da Fifa

20 denúncias em um ano

Os procuradores suíços iniciaram as investigações relacionadas ao Brasil em abril de 2014, mas o processo tomou grande impulso em meados de 2015, chegando a totalizar 60 inquéritos.

No período avaliado pelo relatório, o ano de 2016, cerca de vinte novas denúncias foram feitas contra alvos relacionados à Lava Jato. As investigações foram abertas a pedido do órgão que fiscaliza operações suspeitas nos bancos do país, o MROS (Money Laundering Report Office - Escritório de Denúncia de Lavagem de Dinheiro, em tradução livre).

O documento também faz menção à prisão de um executivo da Odebrecht no país em fevereiro de 2016, identificado pela imprensa na época como sendo Fernando Migliaccio - ele é um dos mais de 70 executivos da empresa a fechar acordo de delação premiada com a Lava Jato no Brasil.

A Promotoria destacou ainda a apreensão, em Genebra, de computadores que continham informações da empreiteira, mas que só puderam ser parcialmente acessados.

Ao todo, a Odebrecht foi multada em 4,5 milhões de francos (R$ 13,9 milhões) e está obrigada a devolver à Suíça 200 milhões de francos de lucros irregulares. Há ainda um montante de US$ 1,8 bilhão (R$ 5,62 bilhões) pendente da negociação entre a empresa e os governos brasileiro e americano.

"Os esforços coordenados entre a Suíça, o Brasil e os Estados Unidos são um sucesso na luta contra a corrupção internacional e um resultado do trabalho em conjunto próximo e da coordenação das autoridades de controle da lei envolvidas", afirmou o documento.

Escândalos em outros países

No episódio envolvendo a Fifa, o Ministério Público não especificou valores, mas elogiou a cooperação que desenvolveu com a Alemanha, Áustria e França para tomar medidas coercitivas.

A Promotoria ressaltou ainda que está enviando aos Estados Unidos os últimos arquivos ainda pendentes, solicitados pela corte do país - o processo contra diversos cartolas da Fifa corre nas cortes americanas, e a Suíça participa apenas como colaboradora.

O Ministério Público também investigou irregularidades no fundo de investimentos Malaysia Development Berhad (1MBD), da Malásia, e os diversos desdobramentos obscuros relacionados às operações dele.

As contravenções chegaram a "possivelmente" envolver oficiais do governo malaio e do fundo soberano de Abu Dhabi, Emirados Árabes, afirma o documento. Os valores não foram citados diretamente, mas o relatório revelou que foram congeladas dezenas de milhões de dólares.

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Image caption Amplitude da Lava Jato impressiona no Brasil e no exterior

As autoridades suíças ainda lamentaram que o governo malaio não esteja colaborando.

"No nível internacional, o Ministério Público notou a rejeição da Malásia na busca por assistência legal para clarificar os fatos e coletar evidências. O Ministério Público, entretanto, está trabalhando próximo com outras autoridades de outros países afetados por esse caso e acolhe a eficiência e velocidade dessa cooperação", dizia.

Apesar de ser um crime intercontinental, com ramificações alcançando Estados Unidos, Cingapura e Luxemburgo, os inquéritos da 1MBD atingiram apenas cem contas suspeitas. Isso é um décimo das contas afetadas pela Lava Jato.

No caso envolvendo a Tailândia, criminosos que atuavam no país roubaram entre 2008 e 2014 dados de mais de 100 mil cartões de crédito de pessoas que moram nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Dinamarca.

Um dos integrantes da quadrilha colaborou com as investigações em troca de uma pena mais branda. Os valores não foram especificados.

O golpe aplicado pela gangue consistia no roubo de informações por meio de mensagens falsas na internet, prática criminosa conhecida como phishing.

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