Funcionários que dormiram no trabalho para evitar greve 'não queriam algazarra', diz subprefeito

Paulo Mathias Direito de imagem Mayra Sartorato / BBC Brasil
Image caption Paulo Mathias disse ter apenas atendido o pedido dos trabalhadores da subprefeitura: 'Eles só queriam trabalhar, não queriam algazarra'

O subprefeito de São Paulo que atraiu atenções na véspera da greve geral por anunciar que servidores dormiriam no trabalho diz que apenas "colaborou" com o desejo dos funcionários.

"Eles só queriam trabalhar, não queriam algazarra", afirmou à BBC Brasil Paulo Mathias, de 26 anos, administrador da região paulistana de Pinheiros.

"A gente apenas colaborou, da forma como pode, para que eles pudessem trabalhar."

Na noite de quinta-feira, Mathias publicou vídeo no Facebook informando que seis funcionários tinham pedido para passar a noite na subprefeitura.

O grupo, afirmou, temia não conseguir voltar na manhã seguinte pelas interrupções no transporte público que a greve causaria.

Na gravação, em que os subordinados aparecem mas não falam, o subprefeito afirma que a atitude deles o deixou "arrepiado" e "emocionado."

"Somos a favor do direito à greve, mas não em dia de trabalho. Queria olhar para vocês e dizer: 'Aqui na prefeitura de Pinheiros amanhã (sexta-feira) é dia de trabalho'".

O vídeo foi criticado por supostamente expor os funcionários e apresentar uma definição inusitada de paralisação.

Mathias afirmou à BBC Brasil que se expressou mal. Disse ser contrário a manifestações - e não a greves - em dias de trabalho.

O gestor rebateu as críticas, argumentando que sua equipe só queria exercer seu dever.

"(Na sexta-feira) chegaram aqui cerca de 20, 30 sindicalistas protestando contra trabalho escravo. Nunca vi trabalho escravo no qual as pessoas simplesmente querem trabalhar. É só isso. E ninguém obrigou ninguém."

O subprefeito reiterou que a pernoite não foi iniciativa da prefeitura, mas de funcionários - motoristas, marceneiros, membros da manutenção e da limpeza - com mais de 20 anos de experiência, que "não pediram suas aposentadorias", "gostam de trabalhar" e "têm amor pelo que fazem".

Histórico da medida

O pedido dos funcionários teria chegado a Mathias na quinta-feira à tarde, quanto ele recebeu uma mensagem da chefe do setor administrativo. Segundo o prefeito regional, ela informava que algumas pessoas dormiriam ali para não perder o dia seguinte.

Àquela altura o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), já havia anunciado o desconto nos salários de contratados pelo município que aderissem à paralisação.

Direito de imagem Reprodução Facebook
Image caption Em vídeo, subprefeito diz que "é a favor do direito à greve, mas não em dia de trabalho. Eu queria olhar para vocês e dizer 'aqui na prefeitura de Pinheiros amanhã é dia de trabalho"

Mathias disse ter sido tocado pela iniciativa - "que gesto de cidadania, que exemplo de funcionalismo público" - e que por isso chamou os funcionários na mesma hora.

"Perguntei: 'Vocês querem dormir aqui?'. Eles falaram: 'Sim, porque a greve vai atrapalhar nossas vidas'."

A administração montou uma estrutura para o pernoite: seis colchões, seis cobertores e pizzas, divididas com Mathias. Todos jantaram juntos. "Foi muito bom, muito bacana", diz o gestor.

Críticas

A publicação de Mathias no Facebook suscitou comentários como "explorador" e "escravocrata", além de carinhas expressando rejeição ao conteúdo. Para o subprefeito, as críticas vieram de uma "massa robótica acionada pelos sindicatos".

"Entramos em alguns perfis para dar uma olhada. Tudo fake, a grande maioria tem um amigo, dois amigos. Você já percebe a coisa construída", disse o subprefeito, que foi um dos coordenadores da campanha de Doria e presidiu o setor de juventude do PSDB paulista por duas gestões.

Em resposta às críticas, ele disse que a situação que motivou a polêmica não foi causada por ele, mas por "quem está parando a cidade".

"Infelizmente, (são) algumas pessoas que insistem em paralisar avenidas e causar transtorno na cidade, impossibilitando pessoas de bem, como eles (funcionários da subprefeitura), de trabalhar."

Nas redes sociais, usuários também questionaram o silêncio dos servidores durante a gravação. Para Mathias, porém, a presença deles era o suficiente naquele momento.

"Só de estarem junto comigo no vídeo... são funcionários públicos concursados, não são comissionados. Então, trabalham aqui há muitos anos... não teria sentido, sabe? São pessoas que aderiram, que realmente quiseram fazer aquilo."

Servidores

Após a entrevista com o subprefeito, a BBC Brasil tentou localizar o grupo que pernoitara no local, mas todos tinham sido chamados por Mathias.

Direito de imagem Cesar Itiberê/ FotosPublicas
Image caption Protesto na capital paulista durante paralisação nesta sexta-feira

Enquanto aguardava os seis, a reportagem conversou com alguns de seus colegas. Na cozinha dos empregados, uma caixa de pizza estava no lixo.

"Pois é, o pessoal dormiu aqui. Sou terceirizado, não tem como não trabalhar, né? Até pensei em pedir para dormir também, mas aí acordei às 4h30 e vim", disse um funcionário da equipe de manutenção.

Os servidores acabaram não aparecendo. "Talvez tenham ido almoçar", palpitou o colega.

Meia hora depois, um novo vídeo foi publicado na página de Paulo Mathias.

E começa assim:

"Meu nome é João, trabalho há 35 anos aqui na (sub)prefeitura de Pinheiros. Eu, com meus amigos, resolvemos conversar com o prefeito para pousarmos aqui à noite, devido a essa greve do dia seguinte. Que eu moro longe, (em) Ibiúna, eu e meus amigos moramos longe. Então, o prefeito deu colchão, coberta, lanche, que nós não trabalhamos, mas pousamos aqui à noite", dizia João, cercado por seus amigos.