O que explica a surpreendente votação no Senado pelo fim do foro privilegiado

Protesto a favor da operação Lava Jato, realizado em março de 2017 Direito de imagem Fernando Frazão/Agência Brasil
Image caption Aprovação de medida foi unânime e sem abstenções entre 75 senadores

A aprovação em primeiro turno pelo Senado da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que acaba com o foro privilegiado para crimes comuns trouxe surpresas e algumas dúvidas.

A PEC, se sobreviver intacta até aprovação final, tira o foro privilegiado de quase todas as 38.431 autoridades que têm o privilégio previsto pela Constituição Federal. Quatro cargos mantêm o foro, mesmo em crimes comuns: o do presidente da República, do Senado, da Câmara e do STF.

Vale lembrar que os crimes cometidos no exercício da função, como improbidade administrativa, continuam protegidos pelo foro privilegiado. O que muda é onde serão julgados os acusados de crimes comuns, como corrupção, se no STF ou na Vara Federal de Curitiba, por exemplo.

Surpresas

Em primeiro lugar, surpreendeu a rapidez com que a medida, que nem sequer estava em pauta, foi aprovada na quarta-feira, 26 de abril. A votação ocorreu logo após a PEC passar, no mesmo dia, sem dificuldades pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ).

A segunda surpresa veio com a aprovação unânime e sem abstenções por 75 senadores de uma proposta que, na prática, retira direitos da própria classe. Se houve debate, não foi no plenário.

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Image caption Senado aprovou na quarta-feira fim do foro privilegiado; proposta ainda precisa ser votada mais uma vez pelos senadores e passar pela Câmara para valer

A terceira surpresa veio com a divulgação de um número pouco conhecido do total de autoridades que, afinal, contam com a proteção, vista como sinônimo de privilégio e impunidade no Brasil.

A imprensa vinha falando em mais de 30 mil. De fato, o total de autoridades cujo foro é garantido pela Constituição Federal é de 38.431, segundo um estudo dos consultores jurídicos João Trindade Cavalcante Filho e Frederico Retes Lima.

Nesse total, estão incluídos o presidente, ministros, 5.570 prefeitos, 513 deputados, 14.882 juízes, 10.687 membros do Ministério Público, além de várias outras autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário nas esferas federal, estadual e municipal.

Mas o alcance do foro privilegiado não termina aí. O estudo dos consultores mapeia também o foro privilegiado garantido pelas constituições estaduais que, em um primeiro momento, não é afetado pela PEC.

São 16.559 pessoas que gozam dessa proteção amparada em constituições estaduais. Para que isso fosse mudado, cada assembléia estadual teria de mudar suas regras. E a proteção garantida por leis estaduais é díspare no que se refere a quantos e quais cargos contam com foro privilegiado.

Em alguns Estados, dezenas de autoridades contam com foro privilegiado, em outros, centenas e, em três - Rio de Janeiro, Bahia e Piauí-, milhares.

Nesses três casos, a extensão do foro privilegiado a vereadores eleva os números de forma desproporcional. São 4.578 mil vereadres na Bahia, 2.143 no Piauí e 1.190 no Rio de Janeiro. Ou seja, do total de autoridades com foro privilegiado garantido por constuições estaduais, quase a metade é formada por vereadores de apenas três Estados.

Somando as autoridades protegidas pela Constituição Federal e pelas constituições estaduais, chega-se a um total de 54.990 cargos, que os próprios autores do levantamento classificam de "espantoso".

A grande dúvida que a aprovação-surpresa gera é o que vai acontecer com a PEC. O leitor da BBC Brasil Renato Lourenço resumiu sua opinião: "Foi uma votação só. Faltam 3. Vão postergar até todo mundo esquecer".

De fato, a PEC ainda precisa ser aprovada mais uma vez pelos senadores para, em seguida, ser apreciada pela Câmara dos Deputados. Na terça-feira desta semana, o plenário do Senado fez a primeira sessão de discussão. O regimento da casa exige um total de três sessões de discussão antes de o Senado votar em segundo turno e a proposta seguir para a Câmara. Lá, ela precisa também ser aprovada em dois turnos. Se os deputados federais mudarem qualquer detalhe do texto, ela volta ao Senado antes de eventualmente virar regra.

Dá para esperar a mesma urgência e unanimidade no processo daqui para frente? Em meio à surpresa, surgiram análises que trazem explicações nada abonadoras para a decisão histórica dos senadores. "Tem caroço nesse angu", "É cortina de fumaça" e "Me engana que eu gosto" foram apenas algumas das reações céticas nas redes sociais.

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Image caption Relator da proposta, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirma que há 34 mil pessoas com foro privilegiado no Brasil

Críticos dizem que os senadores - e vale lembrar que 29 deles são investigados pela operação Lava Jato - estariam simplesmente acumulando munição na queda de braço com o Judiciário.

Muitos queriam aprovada uma legislação dura sobre abuso de autoridade, que permitiria que juízes e procuradores fossem alvo mais fácil de processos, mas parte dos pontos controversos foi retirada do projeto de lei também aprovado pelos senadores na quarta-feira, e que agora segue para a Câmara.

Parcialmente derrotados, levantam agora a bandeira da PEC, que tira o foro privilegiado também do Judiciário. Vale lembrar que o próprio STF deve julgar em maio uma proposta do ministro Luís Roberto Barroso para limitar o foro, mas apenas dos políticos.

O Senado reagiu, talvez também, sugerem alguns, tentando esvaziar essa discussão no Supremo. É que o andamento da PEC vai dar argumento pra quem é a favor da manutenção do foro dentro da corte, de dizer que o Congresso já está analisando a questão e não cabe ao STF decidir no lugar dos parlamentares.

Mas, para alguns analistas, deputados e senadores podem alongar eternamente a tramitação da PEC. Como propostas que alteram a Constituição têm de ser aprovadas com texto idêntico na Câmara e no Senado, basta ficar "aperfeiçoando eternamente" o texto para que a urgência e unanimidade da primeira votação se diluam no tempo.

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