Para cientista político, 'qualquer governo eleito será coagido a rever reformas'

Presidente Michel Temer Direito de imagem Agência Brasil
Image caption Gravação de dono da JBS mostraria Temer incentivando suborno para silenciar Eduardo Cunha, diz jornal O Globo

A notícia divulgada pelo jornal O Globo de que um dos donos da JBS teria entregado à Procuradoria Geral da República gravação do presidente Michel Temer (PMDB) incentivando suborno para silenciar o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso em Curitiba, abala, ainda mais, a imagem internacional do Brasil.

A opinião é do cientista político e professor de Relações Internacionais da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Bruno Lima Rocha.

"Para quem olha de fora, a impressão é que a política brasileira é tão oligárquica que leva à imprevisibilidade", opina Rocha.

Para o professor, a insegurança política do país passa uma imagem internacional de instabilidade. A falta de certeza sobre as consequências do escândalo podem afetar investimentos de longo prazo, diz Rocha.

"Não se sabe quais medidas do governo terão continuidade. Na hipótese de Temer deixar o poder, qualquer governo eleito com o voto popular estará no mínimo coagido a suspender as reformas [Previdência e Trabalhista]", explica.

Temer teria sido grampeado em março deste ano por Joesley Batista, dono da JBS, maior empresa de proteína animal do mundo. O conteúdo da gravação foi divulgado pelo jornal O Globo na última quarta-feira (17). "Tem que manter isso, viu?", teria dito Temer ao saber da "mesada" para Cunha.

O presidente nega o envolvimento. Em nota, a Presidência afirma que Temer "não participou e nem autorizou" a tentativa de silenciar Cunha.

A instabilidade política também ganhou atenção dos jornais internacionais. As versões online do The New York Times, The Guardian, Le Monde e El Mundo destacaram a gravação com o presidente brasileiro. O Guardian chamou o grampo de "gravação explosiva".

"A imagem internacional do Brasil na década passada foi das melhores do mundo. O Brasil inclusive conseguiu operar em nível diplomático em uma escala muito alta", compara o professor.

Embora este não seja o primeiro escândalo do governo de Temer, que tem nove ministros alvo de inquéritos na Lava Jato, é o escândalo com potencial para "derrubar" o presidente.

Na avaliação do professor, não há condições políticas do governo continuar. Para Rocha, Câmara e Senado ficarão paralisados. Deputados e senadores da situação vão tentar blindar Temer, enquanto os da oposição farão protestos.

Temer, que foi citado 43 vezes na delação de Cláudio Melo Filho, da Odebrecht, pode renunciar caso perceba que está perdendo apoio entre os parlamentares. Além disso, há a possibilidade de um impeachment, cujo pedido já foi protocolado. Temer também pode ser cassado pelo TSE, por processo ligado à eleição de 2014 movido pelo PSDB.

Direito de imagem Rodolfo Stuckert / Agência Câmara
Image caption Com a possível saída de Temer da Presidência, cargo seria ocupado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), ou pela ministra Carmen Lúcia, do STF

O partido tucano também foi afetado no novo escândalo. O dono da JBS teria gravado o presidente nacional da sigla e senador Aécio Neves pedindo R$ 2 milhões para pagar advogados para sua defesa na Lava Jato. Aécio nega a irregularidade.

Com a possível saída de Temer da Presidência, o cargo seria ocupado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), ou pela ministra Carmen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Para Rocha, o ideal é que fossem antecipadas as eleições de 2018 com eleições gerais e diretas. O desgaste da classe política até as eleições de 2018 pode abrir ainda mais espaço para os chamados "aventureiros".

Para que a eleição seja antecipada, o professor acredita que oposição e situação precisariam entrar em acordo. Para a base de Temer aprovar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 227/2016, que prevê eleições diretas em caso de vacância da Presidência, seria pedido que o PT abdicasse da candidatura de Lula a presidente, acredita Rocha.

Lula tem sido apontado como o preferido nas pesquisas eleitorais. A PEC é de autoria do deputado federal Miro Teixeira (Rede-RJ) e já pode ser votada na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

Além disso, o cenário político será agravado no momento em que os áudios das gravações forem divulgados ao público - até agora apenas trechos das transcrições foram publicados.

"Vai piorar muito. Não restará condições de continuar o governo", opina o professor.