'Crise é chance para Brasil melhorar sua imagem no exterior’, diz especialista em marcas de países

Protesto contra Temer em São Paulo Direito de imagem Reuters
Image caption Após divulgação de delação da JBS, vários protestos contra Temer aconteceram pelo Brasil

Enquanto milhões de brasileiros reagem com indignação às delações da JBS, há quem veja um lado positivo na atual situação política do país.

"Se você pensar na marca de um país, verá que o teste da verdadeira força acontece em momentos de crise, quando há um desafio. A maneira com a qual a marca lida com um problema afeta como você se sente em relação a ela. Esta é a chance de demonstrar que o Brasil é uma democracia e obedece à lei", diz Christopher Nurko, diretor da FutureBrand, uma agência de consultoria de marcas.

Para o especialista em nation branding (construção de imagens de nações, em tradução livre), o atual momento político é um teste para a imagem do Brasil pós-Copa e pós-Olimpíada, eventos esportivos que alavancaram a atenção sobre o país nos últimos anos em três âmbitos diferentes: democracia, mobilização popular e mercado.

"Este é o teste da democracia, respeito aos cidadãos e soberania da lei. Parte disso diz respeito a ter uma sociedade plural e uma imprensa livre. É a chance de demonstrar que o Brasil tem instituições responsáveis e transparentes e que políticos serão julgados por suas ações", afirma, explicando a primeira instância do "teste".

Image caption 7x1 da Copa do Mundo teve um "efeito psicológico" no Brasil, segundo especialista

"Em segundo lugar, é um teste para uma nova geração de indivíduos empoderados e conectados para ver o que eles vão fazer, como os protestos na rua que vimos na quarta-feira. Países sem uma população informada e interessada não sobrevivem", continua.

"O terceiro teste é em relação ao mercado. Se há instabilidade, ninguém quer investir, sua empresa não vai adiante. Agora que a instituição foi desafiada, a questão é como ela vai responder, se a investigação será independente e legítima."

Para Wyre Davies, ex-correspondente da BBC no Rio de Janeiro, houve uma mudança nas instituições brasileiras com a Lava Jato.

"Algumas instituições brasileiras estão mais fortes, mas ainda é cedo para afirmar se este é um novo começo", afirmou o jornalista durante o evento National-Branding & Media Perception of Brazil ("Construção da marca nacional e percepção da mídia sobre o Brasil", em tradução livre), que ocorreu na última quinta-feira na embaixada brasileira em Londres.

Direito de imagem FutureBrand
Image caption No índice de marca da FutureBrand, o Brasil ocupa a 43ª posição

O evento foi organizado pela embaixada brasileira para discutir a "marca" Brasil, isto é, como o país é visto pelas pessoas em termos de cultura, economia e qualidade de vida. No mais recente índice de marca da FutureBrand, que avalia a reputação de 75 países, o Brasil ficou em 43º lugar no ranking.

Segundo o relatório de 2014/2015 da empresa, feito com 2.530 formadores de opinião e turistas, o Brasil aumentou sua visibilidade em 17 pontos nos últimos anos por conta da Copa do Mundo e da Olimpíada, mas ainda não é considerado uma "marca" pela companhia, já que, para entrar nessa categoria, um país precisa ter uma boa performance em qualidade de vida, potencial de negócios, cultura, turismo e valor de marca.

O Brasil não performou bem em qualidade de vida, segurança e custo-benefício. Dos 75 países avaliados, apenas 22 deles são considerados marcas, como Reino Unido, Japão, Emirados Árabes e outros.

"A marca do Brasil é uma combinação de imagens e atributos do país. Temos a diversidade de pessoas e raças, serviços e produtos associados ao país, turismo, ou seja, a combinação da geografia, dos destinos, os lugares famosos e por fim temos a forma como a marca Brasil é noticiada na imprensa, o que é uma combinação de fatores culturais mas também assuntos dignos de notícia, como acontecimentos políticos ou eventos esportivos", explica Nurko.

Direito de imagem Marcos Bessa, Embaixada do Brasil em Londres
Image caption Christopher Nurko, diretor da FutureBrand, falou sobre a marca do Brasil na embaixada brasileira em Londres

A questão agora é como o Brasil vai lidar com o aumento da visibilidade, segundo o analista. "Eu acho que a crise política é muito mais doméstica, mas quando a economia entra no jogo isso vira um assunto global porque o Brasil é uma das maiores economias do mundo. As pessoas ainda estão interessadas no país, o seu time continua jogando, há um interesse no seu belo futebol, o Brasil continua no palco global. Agora que você conseguiu a atenção global, no que você quer que ela foque?", afirma.

Nem todos concordam que o Brasil esteja recebendo tanta atenção, no entanto. No mês passado, a revista Piauí publicou uma reportagem sobre a "debandada dos correspondentes estrangeiros do Brasil", segundo a qual 30 dos 120 jornalistas cadastrados no Rio de Janeiro foram embora após a Olimpíada, citando dados da Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira no Brasil.

De acordo com uma pesquisa de doutorado da estudante Fabiana Gondim Mariutti publicada na Universidade de Leeds Beckett, o número de notícias sobre o Brasil na imprensa britânica caiu consideravelmente entre o começo de 2013 e o final de 2016. Em 2013, foram publicadas 474 matérias sobre o país no Reino Unido, bem mais que as 308 em 2016, apesar de acontecimentos de impacto como o desastre ambiental em Mariana (MG) e o impeachment de Dilma Rousseff.

Para Silio Boccanera, correspondente da Globonews em Londres, a imagem do Brasil é como um pêndulo que oscila para cima e para baixo, mas em geral o país não é uma prioridade no cenário internacional. "O Brasil é a United Airlines dos países, continua voando, mas com os passageiros um pouco desconfiados de embarcar no avião", disse o jornalista durante o evento na embaixada em Londres.

Direito de imagem Gabriela Loureiro
Image caption Correspondentes e jornalistas internacionais participaram de painel sobre percepções da imprensa sobre o Brasil

Já Jonathan Wheatley, editor de mercados emergentes do Financial Times, afirmou que o Brasil é uma grande economia, mas não um grande jogador no cenário internacional. Brooke Unger, editor de América Latina para a revista Economist, afirmou que a imagem do Brasil "passa ao público pelos motivos errados, com um enfoque negativo".

Para Christopher Nurko, é preciso uma estratégia clara e estruturada de soft power (poder de influência, em tradução livre) para melhorar a reputação e atrair mais investimento estrangeiro.

"Não tenho certeza se o Brasil tem uma estratégia de soft power. Acho que ele tem boa vontade, mas não é visto como um player sério. Se o governo não reconhecer que precisa administrar a marca, a imagem do Brasil não vai evoluir."

Ironicamente, o 7x1 que o Brasil sofreu da Alemanha na última Copa do Mundo pode ser o gatilho para uma mudança de comportamento que levaria a essa evolução, segundo ele.

"O 7x1 teve um enorme efeito psicológico no Brasil, foi como um copo de água gelada na cara. Você tem que acordar para a realidade, tem que trabalhar em equipe e não pode achar que o mundo te deve algo porque você é brasileiro."

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