Crescimento por dois trimestres consecutivos não garante que país saiu da recessão, dizem economistas

Nota de 50 reais Direito de imagem Getty Images
Image caption Após dois anos em retração, PIB cresceu 1% no primeiro trimestre e 0,2% no segundo

A economia brasileira cresceu 0,2% entre abril e junho, depois de avançar 1% nos três primeiros meses do ano e, antes disso, de registrar dois anos seguidos de queda no Produto Interno Bruto (PIB). De forma geral, o fim das recessões é marcado por dois períodos consecutivos de aumento do PIB. Mas no caso do Brasil, o ponto final do atual ciclo de crise pode estar em algum lugar do terceiro trimestre, avaliam economistas.

Isso porque, de um lado, a alta forte observada de janeiro a março foi bastante concentrada na agropecuária. Já o avanço do segundo trimestre, apesar de trazer sinais mais claros de que a economia entra em rota de recuperação, foi muito próximo de zero.

A fragilidade dos números aparece nas expectativas de consultorias e instituições financeiras para o dado que foi divulgado nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As projeções para o resultado do PIB do segundo trimestre estavam relativamente dispersas, com números positivos e negativos, ressalta Paulo Picchetti, membro do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) da Fundação Getulio Vargas (FGV), que, à semelhança de outras instituições independentes presentes em diversos países, identifica o início e o fim das recessões.

A identificação do início da crise também não seguiu a regra geral de dois trimestres consecutivos de queda do produto. Segundo o Codace, a recessão começou no segundo trimestre de 2014, intervalo localizado entre dois períodos de crescimento do PIB - de 0,5% nos primeiros três meses do ano e de 0,3% no terceiro trimestre.

"O resultado (PIB do segundo trimestre) ainda está muito próximo da estabilidade", concorda Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos. Ainda que os dados não sinalizem a saída oficial da recessão, ela pondera, eles reiteram a avaliação de que a economia está melhorando, de que "estamos saindo do fundo do poço".

Já para a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Marzola Zara, os dois trimestres consecutivos de alta sinalizam que a recessão ficou para trás. Os dados relativos ao segundo trimestre mostram uma reação importante dos serviços, ela destaca, e do consumo das famílias.

No primeiro caso, a atividade no setor avançou 0,6%, depois de praticamente dois anos sem crescimento. O consumo teve alta de 1,4% em relação aos três meses imediatamente anteriores, a maior desde o terceiro trimestre de 2012.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Reação da economia no primeiro trimestre foi concentrada na agropecuária

"A mensagem (que os dados de atividade têm passado) é que em algum momento do terceiro trimestre teremos a confirmação de que saímos da recessão", afirma Picchetti, que também é coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.

O risco é o recrudescimento da crise política e uma deterioração ainda maior das contas públicas. Caso a Reforma da Previdência não passe de fato no Congresso, ele ilustra, ou que seja aprovada uma versão muito desidratada da proposta inicial, a situação fiscal do governo se complica.

Para conseguir pagar as aposentadorias e pensões, a solução seria intensificar o remédio amargo que vem sendo usado, de corte nas despesas discricionárias (aquelas em que o governo pode mexer) e aumento de impostos, uma combinação que não favorece o crescimento econômico.

Tópicos relacionados