Após acusações de ex-braço direito, candidatura de Lula pode virar apenas 'estratégia de defesa'

Lula fala ao público
Image caption Analistas divergem sobre impacto do depoimento de Palocci na disputa eleitoral de 2018 | Foto: Ricardo Stuckert

As acusações de corrupção contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT ganharam um novo capítulo na quarta-feira com o endosso de um nome forte do partido, o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antonio Palocci.

Em depoimento ao juiz Sergio Moro, em que foi ouvido como réu em um processo criminal da Operação Lava Jato enquanto tenta fechar um acordo de delação premiada, Palocci mencionou presentes da Odebrecht a Lula, entre eles o sítio de Atibaia, além de R$ 300 milhões da empreiteira para o partido - acusações negadas pela legenda e seu líder.

Apesar do peso de Palocci nos governos petistas, os analistas políticos divergem sobre o impacto que seu depoimento terá sobre a disputa eleitoral de 2018.

Para alguns, acusações vindas de uma figura tão importante no partido dificultam ainda mais as condições de disputa de Lula e do PT. Já outros consideram que, devido ao acúmulo já grande de denúncias contra o ex-presidente e a legenda, os efeitos de novas acusações já não são relevantes.

Em uma coisa, porém, eles concordam: enquanto o Tribunal Regional Federal da 4ª Região não decide se confirma ou não a condenação de Lula por Sérgio Moro no caso do tríplex do Guarujá - o que poderia impedi-lo de concorrer à Presidência devido à lei da Ficha Limpa-, sua candidatura deve ser mantida, até porque interessa como estratégia de defesa sua e do partido, notam os analistas.

"Um bom motivo para manter a candidatura é a defesa da vida pública do ex-presidente contra uma narrativa de que existe um longo movimento entre as elites contra ele e o PT, que começa com o impeachment da presidente Dilma, segue com um governo que estaria desenvolvendo um desmanche do estado do bem estar social construído pelo partido e se encerra com a perseguição judicial", observa Rafael Cortez, cientista político da consultoria Tendências.

"Em boa medida essa narrativa fica mais forte enquanto Lula sinaliza a condição de candidato, pois o capítulo final dessa perseguição é a proibição da candidatura do ex-presidente por meio da condenação judicial", reforça.

Image caption Palocci foi um dos homens-fortes do governo Lula | Foto: Ag. Brasil

Para Cortez, no entanto, Lula só teria condições de ganhar se disputar o segundo turno contra Jair Bolsonaro (PSC-RJ), um candidato de rejeição ainda maior do que a do petista hoje.

O cientista político Ricardo Ismael, da PUC-RJ, tem leitura semelhante: "Acho que o PT não tem saída, porque o PT fez uma aposta em relação ao Lula. Ele vai manter a narrativa de que não há provas, é uma perseguição política e que isso acontece porque Lula melhorou a vida das pessoas. Mas é um discurso que provavelmente será insuficiente pra levá-lo à Presidência", pontua Ismael.

"A campanha presidencial serve como blindagem ao próprio presidente Lula. Se ele abandonasse agora a candidatura, o que não vai fazer, porque Lula controla o PT, isso acabaria com a defesa do Lula. Ele (PT) vai perder a eleição se mantiver o Lula, mas sem Lula provavelmente também. Tirar o Lula agora geraria mais problemas", acrescenta.

Efeitos minimizados

A análise dos cientistas políticos encontra eco na fala dos petistas. À BBC Brasil, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) minimizou o impacto do depoimento de Palocci e reforçou a candidatura de Lula.

"Não temos plano B. Não aceitaremos de maneira alguma a legitimidade de uma eleição que o Lula não participe", afirmou, repetindo um discurso recorrente dentro do partido hoje.

Para desqualificar o depoimento de Palocci, Pimenta ressaltou que ele falou na condição de réu, o que o desobriga a dizer a verdade. Além disso, disse que a alongada prisão preventiva imposta ao ex-ministro é como "uma tortura" para "forçar" uma delação.

Para Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, esse discurso não deve ser suficiente para convencer a opinião pública e o depoimento de Palocci deve complicar as situações política e jurídica de Lula e de seu partido.

"Lula e o PT vão tentar desqualificar a fala do ex-ministro, mas a relação entre eles era muito estreita. Palocci foi ministro de Lula, coordenador da campanha da Dilma e depois chefe da Casa Civil. Palocci fazia caminhada matinal com Lula", diz.

"Como Lula vai responder na TV quando citarem esse depoimento? É difícil a resposta."

Image caption Tribunal Regional Federal da 4ª Região pode confirmar ou não condenação de Lula por Sérgio Moro | Foto: Pedro de Oliveira/ ALEP

Mais do que o conteúdo da fala de Palocci no depoimento, para os especialistas ouvidos pela BBC Brasil o que pesa mais nele é o fato de vir de uma pessoa extremamente próxima ao ex-presidente e que faz parte do "núcleo duro" do PT.

"É uma pessoa que fazia parte do estafe, do núcleo duro da campanha de 2010. Não só no primeiro governo Lula, como também no de Dilma. Ele era um dos homens fortes. Ele partilhava da intimidade do poder", aponta Ismael.

O professor da PUC-Rio lembra que o depoimento de Palocci foi gravado em vídeo e isso poderá ser usado pelos adversários na campanha presidencial. "Esse depoimento é contundente, não é coisa escrita, é vídeo. Pode ser usado até pelos adversários numa campanha. Essa questão consolida a rejeição ao Lula principalmente na classe média, torna ainda mais difícil recuperá-la. Então, o Lula se consolida como um candidato que tem uma oposição muito forte, que pode até atacá-lo pela condenação que ele já tem."

Para Carlos Melo, do Insper, não só a situação política do petista se complica, mas também a defesa de Lula no âmbito da Lava Jato. "A defesa fica mais frágil. Já era complicado com a delação de Marcelo [Odebrecht]. Acredito que Sérgio Moro levará em conta o depoimento de Palocci quando for formar sua opinião."

Acumulo de denúncias

Já o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Antonio Lavareda considera que o acúmulo de denúncias contra Lula e o PT reduz o impacto do depoimento de Palocci.

Na sua avaliação, Lula não deve conseguir sobreviver a uma condenação e disputar a eleição de 2018. Já o PT deve continuar como principal partido de esquerda, embora sem chances reais de vencer a próxima disputa presidencial, devido à memória popular sobre o desempenho ruim do governo de Dilma Rousseff.

"Não tem alteração substancial nenhuma (no cenário de 2018 com o depoimento de Palocci). É uma coisa que já está precificada na opinião pública. Já vêm desde 2005 essas notícias envolvendo ministros do PT, dirigentes do PT. Há um processo de habituação da sociedade", ressalta.

"Os eleitores que colocam Lula num patamar próximo a 30% nas pesquisas ou são eleitores beneficiários dos programas sociais que o PT desenvolveu ou são eleitores ideologicamente à esquerda. Então, esses eleitores estão sujeitos a esse efeito de 'habitualidade' e, por conta disso, as denúncias afetam menos o PT do que outros partidos", acrescenta.

Image caption Para analistas, candidatura de Lula ao Planalto interessa como estratégia de defesa | Foto: Marcos Corrêa/PR

Para Rafael Cortez, da Tendências, os números altos de rejeição a Lula captados nas pesquisas mostram que o desgaste pelas denúncias de corrupção já levou à perda do eleitorado menos fiel, restando o apoio mais cativo.

"Mesmo com o desgaste gerado pelo depoimento do Palocci, Lula teria condições de ter um desempenho melhor que os demais concorrentes da esquerda, por seu histórico e carisma."

Se Lula não puder se candidatar, Cortez acredita que as denúncias reduzem seu peso como puxador de votos para outros candidatos petistas. Na sua visão, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad aparece como uma opção que poderia dar um verniz renovador ao partido, pensando não tanto no resultado da eleição de 2018, mas para reconstruir a legenda para as disputas futuras.

Já o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, diz, poderia ser uma "opção mais emergencial", com foco em 2018, se o partido quiser priorizar a mobilização dos votos do Nordeste.

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