O país cuja população deve triplicar até 2050 - e por que isso é um problema

Mãe e filho no Níger
Image caption Média de filhos por mulher é de 7,6 no Níger, que é um dos países mais pobres do mundo

A expectativa é que a população da África duplique até 2050, mas, no país com a maior taxa de natalidade do mundo, a população deve triplicar.

No Níger, as mulheres têm, em média, 7,6 filhos cada - e, na zona rural de Zinder, a taxa é ainda maior. Não é à toa que é possível ver crianças por toda parte em qualquer vilarejo que se visite. E as próprias crianças têm filhos - mais da metade das mulheres se casa antes de completar 15 anos de idade.

À medida que as economias crescem, tanto os países quanto suas populações se enriquecem e as taxas de natalidade se reduzem gradativamente. Mas o Níger é um dos países mais pobres do mundo.

"No Níger, nós temos uma característica nacional de ser pró-reprodução. Ter filhos é considerado, tradicionalmente, sinal de riqueza e poder", explica o Dr. Hassane Atamo, responsável pelo Departamento de Planejamento Familiar do governo.

A taxa acelerada de natalidade provoca graves problemas, tanto de curto quanto de longo prazo.

"A consequência imediata de uma taxa de natalidade tão alta é que é impossível alimentar, educar e cuidar de todas essas crianças no curto prazo. No longo prazo, a própria sobrevivência do país é ameaçada, a não ser que usemos essa janela de oportunidade para aproveitar ao máximo esse dividendo jovem", afirma Atamo.

O vilarejo de Angoual Gao recebe ajuda externa para encorajar sua população a melhorar o planejamento familiar. Protegidas atrás das grossas paredes de um complexo de prédios de barro, um grupo de mulheres se reúne para uma conversa franca sobre métodos contraceptivos, casamento forçado e problemas relacionados a casar jovem e ter filhos cedo.

É o que agentes humanitários chamam de "espaços seguros" para mulheres - algumas com apenas 10 anos de idade.

Saratou Kanana, de 27 anos, é uma das três jovens mais velhas treinadas para liderar a conversa. Kanana tem quatro filhos e, apesar de todo o aconselhamento sobre intervalos entre gestações, ela se nega a dizer quantos bebês mais pretende ter.

"Tudo depende de Alá", diz.

Mas a situação é mais complicada que isso. Depois de Kanana se esquivar de responder à mesma pergunta formulada de maneiras diferentes, o tradutor finalmente explicou. Por ser mulher, ela não detém a palavra final no assunto.

Tudo depende do marido dela. Se o marido decidir não ter mais filhos, aí sim Kanana poderá ir a um centro de saúde e providenciar a contracepção. "Aqui tudo depende do marido. A última palavra é do marido", esclareceu o tradutor.

Image caption Há muita discussão sobre o 'dividendo demográfico'- a habilidade de os jovens, como força produtiva, tirarem economias da pobreza.

Famílias menores

Por isso, os homens também são encorajados a participar de programas de conscientização sobre planejamento familiar.

Do outro lado da cidade, eles se sentam de pernas cruzadas debaixo de uma árvore e batem papo sobre saúde, educação, aleitamento materno e controle de natalidade - encontros chamados de "escola de marido".

Apesar de Musa Malamharu, 47, liderar a conversa, ele tem duas mulheres, 15 filhos e pretende ter outros dois ou três.

Image caption No Níger, as mulheres têm, em média, 7,6 filhos cada- e na zona rural de Zinder a taxa é ainda maior.

Mudaha Musa, 27, parece ter se convencido de que cinco ou seis crianças - dois ou três a mais do que ele tem hoje- são suficientes. "Realmente aqui existe um problema de ter muitos filhos", admite.

"Mas, com a escola para maridos, estamos começando a ver progressos", diz.

Educação parece mesmo ser a chave para a redução da taxa de natalidade. As rodas de bate-papo para homens fazem parte do mesmo projeto direcionado a mulheres - Projeto Sawki- , cujo objetivo é reduzir o número de mulheres mortas no parto e o número de crianças mortas antes de completar cinco anos de idade, além de estimular famílias menores.

Image caption Ainda que muitas pessoas se convençam a fazer planejamento familiar, o dramático crescimento populacional no Níger levará tempo para ser revertido.

Em uma clínica móvel distante da estrada principal, um quarto pequeno está lotado de mulheres e crianças pequenas.

As enfermeiras distribuem diferentes contraceptivos. Há camisinhas masculinas e femininas, pílulas anticoncepcionais, dispositivos intrauterinos e até um debate sobre contraceptivos por implantes.

É então que Nana Aisha, 28, se levanta e diz que concorda - apesar do receio de sentir dor - em ter um implante com duração de três anos injetado na frente de todos.

"Eu quero mostrar para as outras mulheres, porque existe um falso rumor de que o implante possa se prender dentro dos músculos", disse.

O procedimento em Aisha foi feito em instantes. Algumas das mulheres se reuniram para observar o braço dela, com o implante bem visível dentro da pele.

Image caption Especialistas dizem que haverá caos no Níger, se a taxa de natalidade não for controlada.

Aisha tem três filhos e quer evitar engravidar por pelo menos três anos. "Meu marido é uma pessoa esclarecida. Na verdade, é ele quem está me encorajando a ir ao centro de saúde para garantir planejamento familiar", disse.

No entanto, ainda que muitas pessoas sejam convencidas a ter menos filhos levará tempo para reverter o aumento dramático da população do Níger.

A expectativa é que a atual população de 21 milhões de pessoas exceda 68 milhões nos próximos 30 anos.

"A cultura está mudando, porque as próprias mulheres percebem que ter muitos filhos é um problema para elas", diz a parteira Furera Umarou.

Ela acredita que os casais que optarem por fazer planejamento familiar passarão a ter quatro ou cinco filhos, em vez de oito ou nove. É um começo.

Muito se fala sobre um "dividendo demográfico" - a habilidade de uma nova e ativa força de trabalho em catapultar economias para fora da pobreza, mas isso exige investimentos e vagas de trabalho.

"Se não capturarmos os benefícios do dividendo demográfico, vamos ser jogados num estado de total desequilíbrio", diz o Dr. Hassane Atamo, chefe da divisão de planejamento familiar do governo.

"Isso pode ameaçar a sobrevivência do país e encorajar problemas diversos, como terrorismo e emigração."

Uma grande quantidade de jovens pobres e desempregados pode iniciar uma jornada migratória para a Europa ou a parar nas mãos de grupos islâmicos extremistas, como o Boko Haram. Crescimento populacional massivo é um problema de todos.

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