Polícia contabiliza 9 vítimas de desabamento de edifício em SP; quatro foram identificadas

Bombeiros e cão farejador nos escombros do prédio Direito de imagem Reuters
Image caption Desde a terça-feira, bombeiros buscam possíveis vítimas em escombros do edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo

A Polícia Civil de São Paulo contabiliza agora nove vítimas - quatro delas já identificadas - do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, destruído após um incêndio no largo do Paissandu no último dia 1º de maio.

Restos mortais encontrados pelo Corpo de Bombeiros nos escombros do edifício na última quarta-feira pertenciam a Francisco Lemos Dantas, de 56 anos, que vivia há um mês no oitavo andar do prédio, e aos gêmeos Wendel e Werner da Silva Saldanha, de 10 anos, segundo exames feitos no Instituto Médico Legal (IML).

Segundo o capitão Marcos Palumbo, os restos mortais foram encontrados no 1º subsolo do prédio. "Os ossos estavam bastante afetados pelo colapso da estrutura, a pessoa provavelmente não teve possibilidade de defesa", disse à BBC Brasil.

Também havia sido confirmada a morte de Ricardo Pinheiro, o Tatuagem, cujo corpo foi encontrado na última sexta-feira. Ele quase foi resgatado pelos socorristas antes do desabamento.

Na última segunda-feira, a Polícia Civil confirmou a inclusão do advogado Alexandre de Menezes, de 40 anos, na lista dos desaparecidos. Ele seria um dos moradores do edifício, segundo sua família. Com isso, o número de pessoas ainda buscadas pelos bombeiros nos escombros do edifício subiu para cinco.

Segundo o tenente Guilherme Derrite, a busca por vítimas deve durar por pelo menos mais 10 dias.

"É difícil determinar, porque sempre que encontramos indícios de corpos, paramos o trabalho (de remoção dos escombros) com o maquinário naquele ponto e nos restringimos ao trabalho manual. Por isso, pode durar mais de 10 dias ou menos", afirmou.

Direito de imagem Reprodução Twitter

O edifício Wilton Paes de Almeida foi inaugurado em 1968 e estava abandonado havia 17 anos. No passado, foi sede da Polícia Federal e abrigou uma agência do INSS.

De lá para cá, foi ocupado irregularmente diversas vezes - atualmente, os moradores pagavam em torno de R$ 200 mensais por um cômodo em algum dos andares. A ocupação estava a cargo do Movimento Luta por Moradia Digna (LMD).

A BBC Brasil lista abaixo o que se sabe até agora sobre o caso:

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Moradores do Largo do Paissandu registraram o momento do desabamento de prédio em chamas.

Vítimas

Viviam no prédio cerca de 150 famílias em ocupação irregular, de acordo com o cadastramento feito pela Prefeitura em março deste ano. Como as ocupações de sem-teto têm população flutuante, não se sabe exatamente quantas pessoas estavam no local enquanto as chamas tomavam conta do edifício.

Os bombeiros informaram, no entanto, que a contagem de pessoas que saíram do prédio depois do incêndio chegou a um total de 118 famílias, ou 317 pessoas. De acordo com a corporação, 49 moradores que estavam no cadastro da prefeitura ainda não foram localizados.

O primeiro corpo identificado foi o de Ricardo Oliveira Galvão Pinheiro, conhecido como Tatuagem, que quase foi resgatado pelos bombeiros.

Segundo pessoas que conheciam Pinheiro, ele chegou a sair do edifício, mas decidiu entrar para tentar ajudar outras pessoas a se salvarem do incêndio. Os socorristas chegaram a colocar nele um cinto para salvamento, mas o homem sumiu com o desabamento.

Antes da identificação do corpo pelo IML, a constatação de restos do cinto, além de tatuagens, indicavam que se tratava de Pinheiro.

O segundo identificado foi Francisco Lemos Dantas, de 56 anos, que vivia na ocupação há apenas um mês. Sua ex-mulher o notificou como desaparecido na semana apssada, afirmando que não conseguiu contato com ele desde o desabamento.

Além de Pinheiro e Dantas, também foram identificados restos mortais pertencentes aos gêmeos Werner e Wendel, de 10 anos. Continuam desaparecidos Artur Hector de Paula, de 45 anos, Eva Barbosa, de 42 anos, seu marido Valmir de Souza Santos, Selma Almeida da Silva, de 40 anos, mãe dos gêmeos, e Alexandre de Menezes, de 40 anos.

Image caption Chamas teriam começado por volta de 1h30. Cerca de uma hora depois o prédio desabou. Bombeiros tentavam auxiliar uma vítima que estava no edifício quando a estrutura caiu | Fonte: Corpo de Bombeiros

A que horas o fogo começou e quando o prédio caiu?

O incêndio teria começado por volta de 1h30 da madrugada desta terça. O Corpo de Bombeiros divulgou as primeiras informações sobre os esforços para combater o fogo por volta de 1h40. "Incêndio em Apartamento, Largo do Paissandu, 100 - República. Em princípio não há vítimas. 20 viaturas no atendimento, 45 homens. Aguardamos mais informações do local", postou a corporação, no Twitter. Pouco depois, ficou claro que o cenário era dramático.

Novas informações foram postadas na rede social às 2h da madrugada, afirmando que o efetivo no local havia sido reforçado, que havia "muito fogo pelo local e 1 vítima pedindo socorro no último andar". Pouco depois, o prédio desabou, justamente quando os bombeiros tentavam resgatar Pinheiro.

Image caption Segundo porta-voz dos Bombeiros, ausência de elevadores criou duto de ar e presença de lixo funcionou combustível para o fogo, o que agravou o incêndio | Fonte: Corpo de Bombeiros

O que provocou o incêndio e por que ele se espalhou rápido?

De acordo com o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves, o incêndio no edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, centro de São Paulo, começou em um barraco no 5º andar.

A moradora da unidade onde as chamas começaram, Walkiria Camargo do Nascimento, disse em depoimento à Polícia Civil que ela, seu marido, sua filha de 3 anos e um bebê de 10 meses dormiam quando o incêndio começou.

A origem do fogo, ela disse, foi uma tomada em que estavam ligados uma geladeira, um microondas e um fogão. Um vizinho que morava na unidade vizinha à de Walkiria também prestou depoimento no 3º DP (Campos Elíseos) e confirmou a informação, segundo Alves.

O marido de Walkiria teve 75% do corpo queimado. A criança de 3 anos também sofreu queimaduras e está internada em estado grave. O secretário anunciou que ordenou a abertura de um inquérito para investigar a atuação do movimento social que coordenava a ocupação.

Diversos fatores teriam contribuído para as chamas se espalharem rapidamente e o prédio desabar.

De acordo com o porta-voz do Corpo de Bombeiros, Marcos Palumbo, a ausência de elevadores no local e a presença de muito lixo - e de materiais como madeira, papel, papelão - teriam agravado a situação, funcionando como combustível para o fogo.

O professor de engenharia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Helene, especialista na área há 30 anos, afirmou à BBC Brasil que a falta de sistemas fundamentais para prevenção e combate de incêndios também ajudam a explicar a velocidade das chamas.

"Esse prédio era um grande salão aberto, aparentemente sem paredes internas de alvenaria e sem esses sistemas de proteção suplementares que impediriam que o fogo se espalhasse rapidamente", diz Helene, reforçando a explicação do Corpo de Bombeiros de que os "buracos" deixados pela retirada dos elevadores funcionaram como chaminés, também contribuindo para o fogo passar de um andar para outro.

Direito de imagem Rafael Barifouse/BBC
Image caption Pastor de igreja luterana diz que 80% de igreja foi destruída. Templo havia acabado de passar por reforma de R$ 1,3 milhão

Que outros danos a tragédia causou?

As chamas atingiram dois prédios vizinhos, e o desabamento destruiu parte de uma igreja luterana que fica ao lado do edifício. O templo, chamado Martin Luther, é uma das primeiras paróquias evangélicas luteranas da capital paulista, inaugurada em 1908.

O pastor Frederico Ludwig, de 61 anos, disse à BBC Brasil que 80% da igreja foi destruída. "Sobrou praticamente só o altar e a torre", afirmou.

Segundo ele, o templo havia passado por uma reforma interna que custou R$ 1,3 milhão e se preparava para uma reforma da parte externa.

Direito de imagem Felipe Villela
Image caption O prédio, que pertencia à União e estava abandonado, passou a ser ocupado por moradores sem-teto nos últimos anos

Qual a história desse prédio?

O edifício Wilton Paes de Almeida era um dos marcos arquitetônicos da cidade e tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

Com 24 andares, além de dois pisos de sobrelojas comerciais, e 11 mil m² de área construída, localizado na rua Antonio de Godoi, foi projetado na década de 1960 para abrigar a sede da empresa Cia. Comercial Vidros do Brasil (CVB).

O prédio era considerado a maior obra do arquiteto Roger Zmekhol (1928-1976). Filho de imigrantes sírios, Zmerkhol, nasceu em Paris e veio para o Brasil ainda criança. Ele era professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo.

Sua característica marcante era a enorme fachada envidraçada, que lhe rendeu o apelido de "pele de vidro". Um artigo de 1965 da extinta revista de arquitetura Acrópole ressaltava outras características do prédio - em construção na época - , como o primeiro da cidade a ter sistema de ar-condicionado central e seu hall de mármore e aço inoxidável.

Uma reportagem da Folha de S. Paulo de janeiro de 2017 dizia que o edifício foi a leilão em 2015, no valor de R$ 21,5 milhões, mas não houve interessados.

O local abrigou durante 23 anos a sede da Polícia Federal em São Paulo e, até 2009, uma agência do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Ainda de acordo com a Folha, em 2012, a Secretaria de Patrimônio da União cedeu o prédio para a Unifesp, que instalaria ali o Instituto de Ciências Jurídicas. Mas o projeto não vingou, assim como outro que pretendia transformar o local em um polo cultural em parceria com o Sesc (Serviço Social do Comércio).

Direito de imagem Rafael Barifouse/BBC
Image caption Coordenador do movimento Luta por Moradia Digna diz que pretende ocupar outro prédio para abrigar as famílias do edifício que desabou

Que apoio as famílias estão recebendo?

Questionado sobre de que forma o governo estadual e a Prefeitura poderiam ajudar as pessoas do prédio que desabou, o governador Márcio França afirmou que serão oferecidos abrigos e auxílio-moradia às famílias.

"Elas têm direito ao aluguel social, se quiserem. A gente paga enquanto não encontra apartamento para elas", disse ele.

Mas o coordenador do movimento Luta por Moradia Digna, Ricardo Luciano, disse que o plano é ocupar outro edifício para acomodar as famílias desabrigadas com o desabamento.

"Vamos atender às famílias, ocupar outro local e remanejá-las para lá. Se o movimento tiver que ocupar outro lugar abandonado e sem função social, vai ocupar, porque, nos albergues, as pessoas ficam de lá para cá", afirmou à BBC Brasil.

Ele também rejeita as ofertas do governo de auxílio-moradia e aluguel social. "Não queremos auxílio-moradia. Não queremos ficar vivendo do dinheiro público. Quantas unidades habitacionais a Prefeitura tem para nos dar? As pessoas esperam 30, 40 anos por uma unidade da Cohab. Quando consegue, já está indo para um jazigo", criticou.

O Departamento de Trânsito do Estado de São Paulo (Detran SP) divulgou que a partir desta quarta-feira receberá doações em sua sede para entregar às vítimas do incêndio. Roupas, sapatos, cobertores, itens de higiene, água e alimentos não perecíveis estão entre os artigos que estimula as pessoas a levarem.

O órgão está localizado na Rua João Brícola, 32, ao lado da estação de metrô São Bento. E as doações poderão ser entregues das 8h às 18h.

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