Especialistas ainda tentam decifrar por que prédio em SP desabou em tão pouco tempo

Image caption Edifício foi abaixo em cerca de 90 minutos, metade do tempo que um prédio da mesma altura deveria resistir, diz engenheiro

O texto e o título da reportagem foram alterados após o professor Paulo Helene, ex-presidente da Associação Latino-Americana de Patologias das Construções, ter revisto sua avaliação anterior e afirmado não ter encontrado vestígios das estruturas de metal que poderiam ter levado à queda do edifício em tão pouco tempo. Após ser alertada pelo professor sobre a mudança em sua avaliação, a BBC Brasil fez alterações no texto original.

Conforme os bombeiros avançam nas buscas por desaparecidos do incêndio no edifício Wilton Paes de Almeida, na última terça-feira - na manhã dessa sexta, o corpo da primeira vítima foi retirado dos escombros - especialistas seguem em estudos para tentar descobrir por que o prédio colapsou tão rapidamente.

Segundo o Corpo de Bombeiros, um incêndio começou a se alastrar pelo edifício por volta da 1h30 de terça. Em 90 minutos, às 3h, a construção de 24 andares veio abaixo.

A velocidade do desabamento surpreendeu engenheiros, já que vários edifícios resistiram a incêndios mais longos sem desabar - caso, por exemplo, do Joelma, também em São Paulo, que pegou fogo por seis horas e meia, em 1974.

Projetado nos anos 1960 para uso comercial, o Wilton Paes de Almeida já funcionou como sede da Polícia Federal e do INSS. Abandonado há pelo menos 17 anos, ele foi ocupado irregularmente diversas vezes. Nos últimos anos, servia como residência a mais de 90 famílias, que pagavam mensalidade ao Movimento Luta por Moradia Digna.

Estrutura do edifício

Em entrevista à BBC Brasil na ùltima terça-feira, o professor de engenharia da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Helene, ex-presidente da Associação Latino-Americana de Patologias das Construções, levantou a hipótese de que o prédio teria desabado em tão pouco tempo por causa da composição de sua estrutura - composta de aço e concreto.

Helene se baseou na tese de doutorado do arquiteto Roberto Novelli Fialho, publicada em 2007 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A tese remetia ao projeto arquitetônico do prédio, que indicava a existência de metal nas vigas.

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Image caption Paulo Helene, professor de engenharia da USP, colherá materiais para investigar causas da queda

Por isso, na ocasião, ele disse que a presença de pilares metálicos, que têm resistência menor ao fogo, poderia ter acelerado a queda do edifício.

No entanto, após visitar o local do desabamento nas últimas terça e quarta-feiras, ele afirmou não ter encontrado vestígios desses pilares, o que o levou a concluir que a estrutura era provavelmente inteira de concreto.

"Apesar de a literatura apontar a estrutura mista, isso não se comprovou na prática. É uma estrutura de concreto armado, e isso é um desafio para nós, porque não é esperado que uma estrutura de concreto venha a colapsar em tão pouco tempo", diz ele.

"Pode até haver um desabamento parcial, mas não é razoável que haja um desabamento total como aconteceu. Outra justificativa técnica tem de ser buscada para isso", afirma Helene.

De acordo com normas nacionais e internacionais de segurança, segundo ele, prédios dessa altura deveriam resistir sem desabar, em caso de incêndio, por pelo menos três horas, ou 180 minutos - tempo estimado para evacuação e para viabilizar as ações de salvamento por parte dos bombeiros.

Ele avalia que a retirada dos elevadores e o acúmulo de material inflamável no edifício podem ter favorecido a expansão do fogo e o desmoronamento.

Análise dos escombros

Diretor-técnico do Instituto Brasileiro do Concreto, Helene diz ter obtido autorização da prefeitura para colher materiais nos escombros. Os itens serão analisados em laboratório para que se elabore um diagnóstico sobre as causas da queda. Ele estima que a análise possa levar até um mês.

"Estamos falando de uma estrutura da década de 60 sobre a qual se tem pouca informação até agora. Queremos medir, por exemplo, a resistência e a porosidade do concreto, características que são importantes para conhecermos melhor o projeto e podermos chegar a alguma conclusão".

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Image caption Incêndio no edifício Grenfell, em Londres, no ano passado: revestimento derivado de plástico teria contribuído para que o fogo se espalhasse rápido

Autor da tese em que Helene se baseou, o arquiteto Roberto Fialho disse à BBC Brasil ter usado, ao descrever a estrutura do Wilton Paes de Almeida, informações presentes no livro Arquitetura Moderna Paulistana, organizado por Alberto Xavier, Carlos Lemos e Eduardo Corona.

Segundo Fialho, é possível que o projeto original do edifício tenha sido alterado e que os pilares metálicos tenham sido trocados por concreto. "Às vezes acontece de substituírem um elemento por outro para cortar custos, por exemplo. Fazem novos cálculos e a obra segue adiante", afirma.

Estado das colunas

O engenheiro Antonio Carmona Filho, consultor em patologias das construções há 40 anos, diz que mesmo estruturas de concreto estão sujeitas a desabar em incêndios. "Depende muito do estado das colunas. Se alguma coluna importante estivesse fragilizada, isso pode deixar a estrutura vulnerável."

Em nota enviada à BBC Brasil, o Centro Brasileiro da Construção em Aço diz que edifícios devem passar periodicamente por manutenção e que alterações no projeto original devem ser efetuadas com cuidado.

"Todo projeto prevê o uso e as cargas que serão aplicadas em uma edificação. Quando se faz necessária a alteração de qualquer item, o todo deve ser pensado."

O órgão diz que todos os edifícios no Brasil devem seguir normas técnicas que buscam evitar desmoronamentos em caso de incêndio - inclusive os projetos com estruturas em aço.

"Para essas estruturas há ainda vários sistemas de revestimento contra fogo, que isolam ou retardam o incêndio nas mesmas, como exemplo as lãs de rocha, as tintas intumescentes, as argamassas projetadas, dentre outras."

Gerido pelo Instituto Aço Brasil - entidade representativa do setor siderúrgico no país - o centro reforça que análises realizadas até o momento apontam que os pilares do prédio não eram compostos por estruturas mistas de aço e concreto, mas sim apenas de concreto.

Em nota técnica, a entidade afirma ainda que "desastres têm sido presenciados seja pela falta de manutenção, seja pela descaracterização das edificações", citando como exemplos um desabamento registrado em 2012 no centro do Rio Janeiro e o próprio Wilton Paes de Almeida.

Também ressalta que os projetos em estruturas de aço ou com estruturas mistas seguem normas para garantir sua integridade em caso de incêndio e que são amplamente adotados pelo setor dentro e fora do Brasil.

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Image caption Chuveiros sprinklers, que são instalados no teto e soltam água em caso de fogo, estão entre os artigos anti-incêndio apontados como fundamentais

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