Saída da presidente gera 'impressão de instabilidade', opina brasilianista

  • 12 maio 2016
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Image caption Presidente afastada Dilma Rousseff no Palácio do Planalto, em Brasília

O afastamento da presidente Dilma Rousseff deixará qualquer um dos próximos ocupantes do cargo numa situação política mais vulnerável, opina Bryan McCann, professor de história brasileira na Universidade Georgetown, em Washington.

"Mostra que o processo (de impeachment) poderá ser conduzido mesmo quando não houver provas muito contundentes de responsabilidade individual", ele afirma à BBC Brasil.

Para McCann, a retirada de Dilma gera ainda uma "impressão de instabilidade" na imagem internacional do país e encerra um ciclo para o PT.

"O PT foi capaz de formar aliança com movimentos sociais, trabalhistas e grandes empresas por 12 anos, mas agora terá de se redefinir."

Ele diz acreditar que o governo interino de Michel Temer terá como marcas o "fisiologismo e o nepotismo" - duas coisas que, segundo McCann, são características do seu partido, o PMDB.

Ainda assim, o professor não prevê grandes turbulências nas ruas. "Os brasileiros estão cansados dessa crise, e mesmo as pessoas que se opõem ao impeachment não querem que ela continue."

Para McCann, Temer deverá fazer alguns ajustes na política econômica para torná-la mais aberta a investimentos estrangeiros e não mexerá em programas sociais importantes.

Judiciário com 'superpoderes'

Para Brodwyn Fischer, professora de história latino-americana da Universidade de Chicago, a proeminência do Judiciário como "árbitro da crise política" é preocupante.

"Também estou preocupada com a possibilidade de que o impeachment encoraje em vez de limitar a corrupção, e com o fato de que os que ocuparão o poder sejam tão ou mais implicados com corrupção que Dilma."

Fischer inclui Temer nessa categoria, mencionando suspeitas levantadas "contra ele no passado e presente" e o fato de que ele "chegará ao poder contemplado por políticos" entre os quais estão nomes acusados de corrupção.

Para Sidney Chalhoub, professor de história da América Latina na Universidade Harvard, a interrupção do mandato de Dilma não é um ponto fora da curva na história brasileira.

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Image caption A presidente afastada Dilma Rousseff

"No século 20, os presidentes democraticamente eleitos que conseguem concluir o mandato no Brasil são minoria."

Para ele, a saída da presidente pode significar "não o fim, mas o começo da crise", caso Temer apresente propostas que afetem direitos dos trabalhadores, mulheres e minorias.

Se o presidente interino propuser tais medidas, Chalhoub diz acreditar que movimentos sociais e sindicatos que se mobilizaram contra o impeachment seguirão nas ruas e poderão promover uma série de greves e manifestações.

Só não há maior turbulência no país, segundo o professor, "porque a população é cínica o suficiente para achar que não vale a pena matar ou morrer por nenhum político".

Para ele, não está claro qual papel os movimentos à direita que pressionaram pelo impeachment de Dilma exercerão na política de agora em diante.

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"Pode ser que agora que conseguiram seu objetivo se desmobilizem, porque não são organizações de base ou com experiência de mobilização constante."

Já Brian Winter, especialista em Brasil da AS/COA, centro de pesquisas e debate nos Estados Unidos, opina que Temer representa "um claro avanço" em relação a Dilma do ponto de vista da gestão econômica.

Em artigo no site noticioso Vox, ele afirma que o presidente interino parece menos propenso a intervir em áreas como taxa de juros ou retorno para investidores por acreditar que é "melhor deixá-las a reguladores independentes ou o setor privado".

O problema, diz Winter, é que as medidas necessárias para corrigir a economia são muito impopulares, e Temer assume com baixa aprovação e legitimidade contestada.

"É um caminho íngreme, especialmente porque Rousseff deve passar os próximos meses viajando pelo Brasil e pelo mundo, acusando Temer de liderar um 'golpe' contra ele."

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