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Ivan Lessa: Fim de festa

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6 jun 2012 05:54 BSB

Ivan Lessa

Colunista da BBC Brasil


Foram 4 jubilosos dias. Mais me parecem 40. Sou gringo, não estou acostumado a essas coisas.

Nem fui até a esquina. Mais 40 % da vida afinal de contas se passa em telas. De TV. De computador.

Melhor assim mesmo. Gente não tem estado puro e quando lhe bate um, sai da frente que vem besteira.

Não teve um poeta aí que disse que a Humanidade não suporta muito a Realidade? Os poetas manjam disso. Por isso andam de cabeça baixa na rua.

Lamentam, para as pedras que pisam, não haver uma cuia com que encher de realidade, asssim mesmo com R minúsculo. Então eles catam rimas e métricas onde e como podem.

Terça-feira, pelas bandas londrinas, com missa e orações, foram devidamente encerradas as comemorações do jubileu de diamantes da Rainha.

Como? Com concerto (um piadista bilíngue chamou de "concerto sem conserto" no Mall em frente à Família Real.

Todo mundo sabe que a Rainha não suporta música popular. Nem mesmo Rihanna ou Robbie Williams lhe falam ao cetro.

O que fizeram então os senhores organizadores? Enfileiraram 27 atrações pop de uma Dona Elizabeth que só faltou bater na parede e reclamar para os vizinhos, “Olha o barulho aí, pomba!”.

Embora ache que esse “pomba” aí seja excesso de – olhaí, atenção! – “realidade” de minha parte. Que bom não saber rimar.

Valeu-me enfim uma ignorância entre as muito que as fadas más (hoje se pode dizer, Diana, Princesa de Gales compareceu) me contemplaram quando de meu batizado. Virei meio, para voltar ao assunto em pauta, astro pop.

Os organizadores tacaram uma atração após outra (Aargh! Bleargh!) após outra, popescas todas, segundo critério deles, embora todos sabedores que a jubilada prefira ópera a Kylie Minogue, uma australiana (como se não bastasse) bonitinha que salta, pula, mexe pra cá e pra lá, sorri mostrando a categoria da classe dos dentistas antípodas e foi a abertura dos duros trabalhos roqueiros que se seguiram durante horas.

Foram 27 atrações, como dizem aqui sem aspas, incluindo, e muito, Paul McCartney e – vade retro! – Elton John.

Só tem que Rainha jubilada de diamantes tem o direito, apesar de muito amada e festejada, de armar carranca quando quer.

A BBC TV mostrou em baita close o real rosto como se exposto ao último dos odontologistas que sobrou do Império que foi lindo e se acabou.

Trabalhou mal a BBC. Fuçando os jornais de terça-feira, lá estavam as críticas à rival de notícias 24 horas por dia, a Sky, do notório Ropert Murdoch, que, segundo os críticos, em matéria de cobertura, deu de 5 a 1 na tradicional e já quase parte da Família Real, BBC, três letrinhas que valem quanto pesam.

Faz mal, não. Fica para a próxima. Na Sky, que foi de onde participei do brilhante jubileu, ou jubileu de brilhante, lá estava ela, “dona” Rainha: cara chateadérrima e, mais, segurem que essa que não foi brincadeira, tremendos tampões nos ouvidos, ou Protetores Auriculares, conforme se diz nessas rodas.

O resto do pessoal de sangue azul ou cerúleo, fazia o que lhes fora ensinado, sorriam, que é sempre uma forma de se lidar com simpatia com a já muito citada realidade, ao menos nestas linhas.

Agora vivo mesmo foi o príncipe Philip. Forte e despachado, mesmo para seus 90 anos, depois de passar não sei quantas horas na chuva, no dia anterior, fez uma careta (diferente, bem diferente da que fez sua jubilada cara-metade vale quanto pesa) deu uns dois grunhidos discretos, levou a mãozona de origem grega ali por perto dos países baixos e reclamou de uma dorzinha aqui e outra ali.

Não teve por onde. Levaram-no para um hospital onde ficará (pois essa é sua sina na vida) em estado de observação. Mas distante do concerto pop.

Esse é vivo, esse sabe das coisas, está por dentro dessa jóia rara que é a... pois é, como vínhamos falando, realidade. Colou e não colou, uma vez que todos sabem que príncipe jubilado com mais de 1m85 de altura não tem o órgão de que reclamou, ou seja, a bexiga. Bexiga é um bairro em São Paulo ou coisa de pobre. Essa a realidade.

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