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Veteranos da seca no Nordeste dizem que pior já ficou para trás

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18 jun 2012 16:44 BSB

Paulo Cabral

Enviado especial a Salitre (CE) e Ouricuri (PE)

Manuel Francisco | Foto: Paulo Cabral/BBC Brasil

As secas continuam a ser um drama humano no sertão nordestino, onde o acesso à água e à alimentação permanece escasso. Os moradores do semiárido avaliam, no entanto, que as condições de vida hoje são bem melhores que as do passado.

"Eu acho que umas dez secas já aconteceram comigo. Esta de hoje não está tão ruim porque tem mais ajuda (do governo) e tem estas cisternas para armazenar água", conta o agricultor José Raimundo da Silva, de 64 anos, de Salitre (CE).

O sertanejo conta que sua pior seca foi a de 1993. "Fui obrigado a ir para São Paulo porque não tinha como sobreviver aqui. Eu larguei a família e fui pra São Paulo trabalhar por quatro meses", diz.

A secretária nacional de segurança alimentar e nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Maya Takagi, afirma que as famílias do semiárido "estão reagindo bem às adversidades" da seca.

"A cada ano, o Brasil fica melhor preparado para enfrentar essa adversidade, que nós já sabemos que ocorre periodicamente", diz Takagi.

"É uma situação muito diferente daquela das grandes secas de meados do século passado, quando populações inteiras migravam simplesmente porque não tinham condições de sobrevivência", acrescenta.

O agricultor Manuel Francisco dos Santos, de 87 anos, ainda tem lembranças de uma das estiagens mais marcantes da história do Nordeste: a grande seca de 1932, quando o Estado do Ceará criou instituições, apelidadas de "currais do governo", para confinar os retirantes que ameaçavam se deslocar em passa para Fortaleza.

"Seca perigosa", relembra o veterano.

Pouco avanço

Apesar da melhora na qualidade de vida das populações, o sertão tem grande parcela de responsabilidade no fraco desempenho dos índices sociais no Nordeste.

A região ocupa as últimas posições em praticamente todos os indicadores sociais, como analfabetismo (20,7% no Nordeste contra média de 10,5% no Brasil), pobreza (42,1% da população contra 28% na media nacional), IDH (0,75 no NE e 0,82 no Brasil) e expectativa de vida (70,1 anos no NE e 73 na média do Brasil).

O coordenador-geral do Centro de Assessoria e a Apoio aos Trabalhadores e Instituições Não-Governamentais Alternativas (Caatinga), Paulo Pedro de Carvalho, diz que é essencial uma estratégia que pense o desenvolvimento sustentável do sertão no longo prazo, agora que as condições de vida melhoraram.

"O sertão não é um problema para o Brasil. Ele tem de ser parte da solução", diz Carvalho.

O sertão nordestino não se beneficiou do recente surto de desenvolvimento que vem ocorrendo na região, com a instalação de indústrias e o grande crescimento no comércio e no setor de serviços, diz.

Para os moradores da região, os problemas comuns nas secas do passado - como saques, cenas de crianças subnutridas e levas de migrantes indo para as grandes cidades - não se repetiram na atual estiagem por causa dos programas de transferência de renda, principalmente o Bolsa Família.

Em maio, o governo liberou também uma "Bolsa Estiagem" para complementar a renda de moradores das 170 cidades mais atingidas pela seca, como Salitre (CE).

"Se essa seca estivesse acontecendo 15 anos atrás, agora já ia ter gente saqueando as cidades. Hoje as pessoas mais carentes e os agricultores que perderam suas safras estão se segurando através dos programas sociais", diz o prefeito de Salitre, Agenor Ribeiro.

Lembranças piores

Os 1.133 municípios que integram oficialmente o semiárido brasileiro – semelhante à área do antigo "Polígono das Secas" – também têm algumas vantagens na concessão de créditos para a produção e na utilização dos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).

"Nos outros tempos é que era mais difícil. Agora é muito diferente, tem aposentadoria", diz o agricultor José Francisco, de 79 anos.

Durante os anos 1980 e 1990, antes da introdução dos programas de transferência de renda, eram as aposentadorias de trabalhador rural, concedidas aos 65 anos de idade, que sustentavam famílias inteiras em épocas de seca.

Com quase oito décadas de vida no sertão, José Francisco se lembra de um tempo em que nem havia a aposentadoria rural, que só começou a ser criada no fim dos anos 1960. "(Minha pior seca) Foi a de 50. A gente plantou e cresceu bastante, mas depois morreu tudo."

O agricultor Francisco Manoel de Souza, de 72 anos, também tem as secas dos anos 1950 como as piores de sua memória.

"A gente chegou a passar fome mesmo. Não tinha nem estrada, então mesmo que tivesse dinheiro não tinha como conseguir comida", recorda. "Hoje é moleza, em vista de como eu fui criado."

Colaborou João Fellet, de Brasília

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