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Atualizado às: 06 de janeiro, 2004 - 11h46 GMT (09h46 Brasília)
 
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Cientistas tentam recriar no Pará 'solo indígena que pode combater fome'
 

 
Experimento com terra preta na Amazônia
Solo muito fértil é legado de índios pré-históricos
 

Cientistas brasileiros e estrangeiros tentam recriar no Estado do Pará a terra preta arqueológica, um tipo de solo que, segundo eles, pode ser ajudar a resolver o problema da fome no mundo.

Muitos pesquisadores acreditam que a terra preta seja o legado deixado por milhares de índios pré-historicos que habitaram a Amazônia antes do descobrimento da América, mas que foram dizimados pelas doenças trazidas pelos europeus, como a gripe e o sarampo.

Nos tempos atuais, os caboclos que moram às margens dos rios na região amazônica foram os primeiros a descobrir, por acaso, a riqueza da terra preta. Plantando as roças sobre a terra, perceberam que ela permanecia sempre fértil, sem necessidade de qualquer tipo de adubo.

As pesquisas mostraram o motivo de tanta fertilidade: a terra preta é uma espécie de solo com coloração escura e restos de material arqueológico (como fragmentos de cerâmica e carvão) e enriquecidos em cálcio, carbono, magnésio, manganês, fósforo e zinco.

Experimento

Um experimento está sendo realizado desde junho na cidade de Tailândia, no nordeste do Pará.

Um composto orgânico similar à composição da terra preta foi colocado numa parte do solo da região, e os cientistas estão esperando para ver os resultados.

Experimento com terra preta na Amazônia
A terra preta foi identificada pela primeira vez há 50 anos
 

Além disso, uma equipe estuda a microbiologia do solo, para verificar de que maneira o processo da fertilidade pode se tornar mais rápido.

"Quando este processo for acelerado, teremos todas as condições de melhorar as condições de vida do homem amazônico", disse à BBC Brasil Dirse Kern, geoarqueóloga do Museu Paraense Emílio Goeldi e uma das maiores especialistas brasileiras sobre a questão.

Origem

Existem várias hipóteses para a origem da terra preta arqueológica, identificada pela primeira vez há cerca de 50 anos, em trechos do Pará e do Amazonas.

Uma corrente acredita que a formação deste tipo de solo tenha sido proposital.

"Essas tribos que moraram na Amazônia, e que não existem mais hoje, pegaram lodo das ribeiras dos rios, materiais finos da terra e transportaram isso para o interior, misturando com cinza de ossos e outros materiais, vegetais e animais", explica Winfried Blum, diretor do Instituto de Ciências do Solo da Universidade Rural da Áustria.

Ele estuda o assunto desde a década de 70, em constantes viagens ao Brasil.

Já Dirse Kern acredita que tudo tenha sido obra do acaso.

 

 A existência da terra preta pode nos dar informações sobre como manejar nossos solos de maneira mais sustentável no futuro.

Johannes Lehmann, da Universidade Cornell

 

"A terra preta foi formada a partir da ocupação humana pretérita, não intencional", defende ela.

De acordo com a pesquisadora, a alta fertilidade desses solos se deve ao acúmulo de material orgânico depositado nas aldeias indígenas na pré-história, como prática cultural daqueles povos.

O professor alemão Johannes Lehmann, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, não quer entrar nesta polêmica.

"A existência da terra preta, intencionalmente ou por acaso, já é motivo suficiente para olharmos com mais cuidado para este fenômeno, que pode nos dar informações sobre como manejar nossos solos de maneira mais sustentável no futuro", completa o especialista, que vem estudando o tema desde 1998.

Solução para a fome

Numa coisa, todos os envolvidos no projeto concordam: o mistério da terra preta pode ser a solução para a fome no mundo.

"Mas nós temos primeiro que conhecer como os índios fizeram isso, qual foi a técnica usada por eles", diz o professor Wilfried Blum. "Temos que reconstruir hoje o que essas tribos que não existem mais conheciam e utilizavam para criar a terra preta."

A experiência na cidade paraense de Tailândia está sendo realizada numa área pequena, de 4 hectares. Os pesquisadores estão utilizando material de origem animal como sangue e ossos de restos de açougue.

O material vegetal utilizado é composto de resíduos de pó de serra e de carvão.

Se o projeto piloto der certo, a experiência será estendida para pequenas propriedades familiares, que dependem de pequenas plantações para sobreviver.

"É uma rede de trabalho lidando com esse assunto", explica o professor Lehmann. "Queremos entender a vida dos povos indígenas antes da chegada dos europeus e também entender as propriedades do solo. Essas propriedades da terra preta podem nos ensinar como melhorar nossas técnicas de uso da terra. Essa é uma grande oportunidade para melhorar o uso da terra no mundo inteiro."

Estudos da equipe arqueológica internacional indicam que a terra preta pode chegar a cobrir 10% da Amazônia, uma área duas vezes maior do que a Grã-Bretanha.

Um livro sobre a terra preta, com hipóteses sobre a criação, preservação e experiências, será lançado neste ano, coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi.

 
 
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