Três acordes e um gritinho

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Não entendo nada de música popular. Deste século. De pelo menos 40 anos do século passado. Cantarolo o que já foram chamados entre nós de clássicos populares. Ou "standards", pelos americanos.

Carinhoso, de Pixinguinha, não é estranho às minhas vocalizações no chuveiro ou mentais. Canto mais mentalmente no que no chuveiro, confesso. Além de ruim de voz, tenho um fraco por lugar-comum. Tendo pouca imaginação, e sempre abilolado no que diz respeito a concentrações, quando tenho uma viagem maiorzinha, seja de trem ou de avião, lá vou eu entoando velhas, velhíssimas canções, nos recônditos ainda em vinil e analógicos de minha mente, onde o engenheiro de som sempre dá um jeito de melhorar a interpretação mexendo lá nos seus botões.

Minhas interpretações no frio e no escuro de minha mente doentia são invariavelmente a capella, uma vez que meus dotes musicais dão apenas para quebrar o galho com Blue Moon (introdução, inclusive), J'attendrai e Senza Fine. Não me peçam um arranjo, mesmo simples, com piano, contrabaixo, bateria e guitarra elétrica. Caixa de fósforo ou chapéu palheta já serias exagero. Mais dotado fosse, e meus acompanhamentos estariam todos a cargo de Nelson Riddle, que também regeria a orquestra toda: metais, cordas e percussão.

Volto a meu trem. Minhas cantorias caladas. Música popular. Deve ser bom estar vivo nesta época em que todos os dias há novas bandas surgindo, cantoras de um nome só despontando, rapazes de origem humilde e talento ainda mais modesto saindo vencedores nesses programas de calouro de luxo que povoam o mundo. Fosse eu garotão e tivesse dinheiro, estaria comprando disco adoidado, ou baixando no computador, ou na engenhoca mais em moda, essa garotada toda de vida artística breve e dinheirama gorda e longa.

Um dia, quando ela estava mais na moda, Madonna Louise Ciccone me serviu de inspiração. Anos 90, por aí. Um jornal deu o quanto ela iria faturar naquele ano. Abro parêntese: o que os artistas ganham faz parte de seu repertório e não pode faltar a qualquer show. Fecho parêntese. Dei-me então à pachorra - só as pessoas de minha idade podem se dar à pachorra - de calcular, por alto, quanto daria isso em termos da época de ouro da música popular norte-americana, ou seja, entre 1920 e 1960, por aí. Armado de caneta esferográfica e papel, mentalmente ouvindo, pela enésima vez, a gravação de Sing, sing, sing, de Benny Goodman, com Gene Krupa deixando cair na bateria, fui fazendo contas.

Ali estava, na minha frente, para todo mundo ver. Ou eu só ver. Madonna, naquela desgraça de ano, estava ganhando mais dinheiro do que todos os músicos de jazz ganharam juntos durante perto de 5 décadas. Repito: todos os músicos de jazz. Duke Ellington e cada membro de sua orquestra. E Count Basie. E Stan Kenton. E Tommy Dorsey. E Artie Shaw. Mais que todos os vocalistas: Sinatra, Ella, Crosby, Sarah, Haymes, Eckstine. Todos. Todos, todos, todos.

Taí, confesso que não achei justo. Só algum tempo depois me veio a luz. Eles e Madonna não estavam na mesma profissão. Eram músicos eles, ela espetáculo. Para aquela idade terrível: dos 12 aos 24 anos. Tudo hoje se dirige para essa faixa etária. Dela é este reino e o do céu também. Esta, a faixa etária, que se não aprendeu nada de música, harmonia, contraponto, arranjo ou modulação, uma única coisa aprendeu: ganhar muito dinheiro. Já é algo. Toca, pois, tudo a ser "artista". Passa tudo para a fila de aspirantes à participação nos programas de calouros incrementados.

Há um lado positivo nessa história. Além de deixar a música para quem música aprecia. A hipocrisia com relação à total falta de talento não é absoluta. Um rapaz por nome Jarvis Cocker, que segundo consta é um mito imortal como Charlie Parker ou Lester Young, admitiu - admitiu, não; gabou-se, isso sim - não entender nada de música, de composição, coisa alguma. Segundo Donovan, frágil menestrel dos anos 60, "Basta não desafinar. Muito. E saber contar até quatro. Muitos compositores modernos sabem contar até quatro." O cavalheiro esse não estava sendo irônico. A ironia não faz parte do repertório da moderna música pop.

Ennio Morricone, que dispensa (mesmo) apresentações, disse de certa feita que os Beatles seriam muito melhores se tivessem estudado música. No que discordo violentamente do maestro e compositor italiano: seriam muito piores. Uma intimidade maior com as formalidades da composição musical só botaria minhocas na cabeça de cuia dos então jovens liverpudlianos.

Como disso no título desta croniqueta desafinada: três acordes e um "uau!", gutural de preferência, quebram o galho. De quebra, dão uma fortuna.