Efeito geladeira

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Nevou em janeiro. Anos que eu não via isso. Ao menos na porta de casa. Me impedindo de chegar ao metrô. Fotos foram tiradas do jardim da frente e de trás. Ficaram bonitas. Frio é bom para dormir. Um sonífero a menos do que os de costume.

Dezenas de milhares de londrinos ficaram ilhados em suas casas. Frio ilha? Acho que sim. Feito pinguim em bloco de gelo. Ou iceberg. Todo mundo reclamou. Das autoridades. Na verdade, há uma dose de hipocrisia nisso. Não há dezenas de milhares de pessoas loucas para chegar ao trabalho e pegar no pesado, ou mesmo no leve, de 10 às 5. Reclamaram das devidas autoridades.

Nada mais cretino que uma devida autoridade. Em Londres, há uma autoridade para transporte. Os bairros e seus conselhos têm suas autoridades encarregadas de espalhar o grit - aquela mistura de terra e areia - nas ruas e calçadas afim de tornar "andável" e "guiável" a vida dos londrinos. Não cumpriram suas funções, as autoridades. Segundo o pessoal que ficou vendo televisão, tirando fotografias ou registrando em videogravadores o manto branco que cobriu a cidade.

Esse manto branco de neve há 13 anos que não cobria Londres. 13 anos não é tanto tempo assim. 130 anos é mais. Manto branco lá fora, cobertor de lã dentro de casa. Ô vida boa!

Capaz de algum banqueiro ter achado chato. Algum dia deverá ter passado sem que pudesse um ou outro passar na City e recolher mais alguns milhões de pensão, bonificação, aposentadoria, seja lá o que for que os bilionários criadores e avalistas da atual crise econômico-financeira que, essa sim, como um manto, nigérrimo, cobre o hemisfério norte. Nhô, sim. Tudo começou em outubro. Os termômetros já partindo para o grau zero da vida. O resto do pessoal, sejamos sinceros, curtiu um pouco.

Passou o inverno. Março está aí e a primavera quer dar o ar de sua graça. Ou das palhaçadas que faz com as árvores, as flores e, dizem, os namorados. Logo, logo estaremos todos adiantando o relógio. Acertando os ponteiros dos aparelhos de calefação. Passando em revista o armário com as roupas adequadas. Pressurosas, bolinhas de naftalina aguardam suéteres.

Não é para já. Berram os jornais. Vai nevar de novo. No norte, no sul, em todos os pontos cardeais das ilhas. As neves não deverão chegar aos 20 cm de altura que bateram neste janeiro e fevereiro que passaram. A esta altura do campeonato, ninguém pode jurar nada. Menos os descontentes de sempre protestando contra todas as poluições e atentados contra a natureza pelas quais os homens são responsáveis. Quero ver alguém caindo de pau na natureza. Que ela é irracional. Que não tem a menor idea do que faz. Nem se importa. Uma louca, a natureza.

A natureza, como todos os irracionais, é indiferente à nossa sorte. Com ou sem carrinho movido a etanol. Encucou e babau para nós. Mais sentido fazer figa ou rezar para São Judas Tadeu. Ou seja lá quem for o responsável por outras causas perdidas.

Viver é perigoso, escreveu Ernest Hemingway. Escrever direito também. Vejam o caso do presidente da Guiné-Bissau. Morto a tiros. Primeira vítima do acordo ortográfico. Prosseguem as indagações para se verificar se o falecido era contra ou a favor da reforma unificadora. Cuidado com os hífens, gente. Deixem para lá esses tremas.

Coisas também da natureza.

Só há uma solução para evitar a natureza. Ficar em casa.