O indicador Myers-Briggs-Lessa

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Tudo mundo que, aqui no Reino Unido, já se candidatou a um emprego cheio de frescuras, já passou por uma avaliação de personalidade conhecida como MBTI, de Myers-Briggs Type Indicator.

Trata-se de um indicador de tipos básicos baseado nas teorias de Carl Jung e é o resultado da labuta incansável de Katherine Cook Briggs e sua filha, Isabel Briggs Myers. Ambas passaram 40 anos pesquisando e catalogando os diversos tipos de personalidade das pessoas, levando em conta suas diferentes atitudes diante do mundo e da vida. Em 1962, finalmente, as duas resumiram seu trabalho num questionário que identificava 16 tipos de personalidades diferentes.

Não. Não somos tão originais ou complexos como pensávamos. Ao menos aos olhos e à diligência das duas Briggs. Não vamos além dos 16 tipos ou protótipos. Dezesseis tipos baseados em combinações de quatro pares de temperamento. Em geral, segundo mãe e filha cientistas, mostramos uma pronunciada preferência por ao menos duas características de cada par.

Daí o entusiasmo de empregadores apreciadores de coisas da ciência e assinantes, suponho, da Seleções do Readers' Digest. Há gente que tem suas dúvidas quanto ao real mérito do MBTI. Eu sou uma. Principalmente depois que soube que nenhuma das duas Briggs envolvidas no esquema jungiano possuía qualquer tipo de treinamento psicológico. Para não falar do fato de que os testes carecem de validade estatística.

Tomando conhecimento dessa variedade de psicometria, resolvi dar minha colaboração ao MBTI, visto que também, feito as duas, não tenho treinamento psicológico e sou um desastre em matéria de estatísticas.

Que fique claro: a BBC não recorre, em hipótese alguma, ao MBTI. Seus critérios são rigorosamente diferentes. E mais não digo.

Ao MBTI, pois, e minha colaboração dada a ele.

Segundo esse indicador, o primeiro par de temperamentos diz respeito à preferência das pessoas aos mundos interno e externo. Essas pessoas podem ser extrovertidas ou introvertidas. O segundo par concerne à maneira como absorvemos informações do mundo que nos cerca. Por percepção e por intuição. O terceiro par é como tomamos nossas decisões. Se pensando ou sentindo. E o par final, como preferimos dar ordem a nossas vidas. Julgando ou percebendo.

Ora, pois, pois. Tudo isso é quase tão elevado quanto aqueles cadernos que circulavam antigamente nos colégios e a dona pedia que preenchêssemos páginas e mais páginas de perguntas assim feito: "Qual o seu astro e estrela prediletos?", "O que achas do beijo?", "Onde pretendes passar a lua-de-mel?" E coisa e tal.

O que falta ao MBTI é cintura. Molejo. Malícia. Bossa. Picardia. Nós, nesta Terra achatada nos pólos, somos perto dos 7 bilhões. Ninguém vai me convencer, mesmo depois de 40 anos de incansável labor, que essa gentarada toda - dos norte-coreanos aos finlandeses - pode ser dividida em apenas 16 tipos devidamente catalogados, como se fossem borboletas pregadas na parede.

Há que se categorizar de per si, para lhes fazer justiça, os chatos com ou sem galochas. Os sem caráter. Os bobos alegres e os bobos tristes. Os insignificantes e os soberbos. Os metidos a besta. Os bons sacanas. Os filhos da mãe. Gente que não acaba mais.

Eu poderia continuar. Paro por aqui. A humanidade não cabe nos 140 caracteres ou 27 palavras do twitter. Ela não está sujeita a outros testes, além dos exames de urina e de vista, que não sejam as palavras cruzadas (simples) e o sudoku (primário). Temos que empregar ou ser demitidos no peito, na raça e na valentia. Sem testes. Na marra. Sim, um curriculum vitae razoável ajuda.