G20. Adotando: uma solução

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Mais de 19 (20 para ser preciso) países discutindo os grandes problemas que a humanidade (eu, você, eles) enfrenta e como superá-los, ou, ao menos, por eles passar de fininho: Até agora ninguém chegou a uma solução. Sensata ou insensata.

Soluções e sugestões? Muitas. Uma trabalheira infernal para os tradutores. De concreto mesmo, neca. Pelo menos, os altos e poderosos, os donos deste mundo, se conheceram, passaram um tempinho juntos, ficaram olhando de longe - meio temerosos, meio desdenhosos --, o populacho comprometido com as mais diversas tendências contrárias ao acúmulo do poder dos diversos poderes. Protestando, provocando a polícia, urrando slogans, portando cartazes. Fazendo, enfim, o papelão habitual de sempre quando vai às ruas, diante de tudo quanto é tipo de câmera. Colado neles, a polícia dando ordem aos trabalhos via cassetete e choques de taser.

A reunião do G20 foi boa enquanto durou. O cafezinho, consta, era meio sobre o fracote. Os 20 Gs (de grandes e gostosões) chegaram à conclusão de que com calma, cuspe e jeito chegar-se-ão ao... busílis, digamos assim, do sujeito.

Nenhum dos Gs notou que a solução estava dando sopa, naquela hora mesma, em outros pontos do globo. Por, como eles, celebridades cinco estrelas. Sim, cinco estrelas. Celebridade virou coqueluche de uma pobreza indizível. Qualquer terceiro colocado em qualquer Big Brother da vida é prontamente contemplado com o apodo "celebridade".

Todos citam aquela frase vulgar do Andy Warhol. Uma que não me rebaixo repetindo. Como? Não conhece? Dane-se. Considere-se celebrizado pelos próximos 15 minutos.

As celebridades cinco estrelas, celebridades de olho azul e pela branca, nhô sim, saíram por este mundo de Deus, aquele mundo de olhos e cabelos mais negros que a asa da graúna, adotando adoidados. Criancinha do terceiro mundo, principalmente da África, é a última palavra em matéria de grife em Rodeo Drive.

O exemplo vem sempre de cima. A senhorinha Madonna, de 50 anos, pra começo de conversa. Deixou para lá, deserdou, ou desfez o arranjo, ou seja lá o que fosse que tinha com seu garotão brasileiro, tal de Jesus.

Madonna na cama com Jesus. Bom título para livro safado e herege e quadro blasfemo de pintor setecentista.

Tema legal para novo best-seller de Dan Brown. Não vem ao caso. Fato é que a pop star se mandou para Malauí, um dos países mais pobres da África, na tentativa de adotar, por métodos legais, o que é curioso, uma menina chamada Mercy (ou Misericórdia) James.

Trata-se da segunda investida dessa senhora que se diz cantora para cima de Malauí. Em 2006, dois anos antes de ir de brasileiro Jesus, Madonna já havia adotado um menino no pobrezinho do país. David Banda, à época com inocentes 13 meses apenas. Consta que David, apesar do sobrenome, e de não ter pele branca nem olhos azuis, até hoje não toca instrumento nenhum.

Malauí tem 1 milhão de crianças órfãs. Por causa da Aids. Um verdadeiro paraíso para adotadores em potencial. Celebridades 5 estrelas, ou mesmo nenhuma estrela.

G20, adotar é a solução! Vejam outro caso notável. Sempre de pele branca (ou morena), olhos azuis e calçada. Angelina Jolie e Brad Pitt.

Esses podem dar lições em matéria de adoção. 5 estrelas a granel.

Angelina Jolie, na quinta-feira, 15 de março, adotou um terceiro filho vietnamita. A companheira de Brad Pitt já afirmou em alto e bom som que quer uma família integrada por crianças de diferentes países. "G20zou-se" em grande classe.

Angelina não é casada com Brad. São apenas companheiros. Celebridade dispensa esse tipo de protocolo. O da adoção, não. Principalmente em país pobre, onde o processo corre célere como um traficante fugindo da polícia.

O casal, chamemo-lo assim por cortesia, tem uma filha natural, Shiloh Nouvel Jolie-Pitt, nascida em maio do ano passado na Namíbia. Foram os dois para Namíbia apenas para a angélica Angelina parir. Novo método natalino. Dizem que os ares lá são sensacionais para o parto de Shiloh Nouvels e até mesmo Joões e Josés de Tal. O pequerrucho vai assim juntar-se aos outros dois filhos adotivos, Maddox, cambojano de 5 anos, e Zahara ("A Rainha do Deserto", segundo uma HQ), pequenina etíope de 2 anos.

Celebridades 2 estrelas também adotam. Ewan McGregor, aquele de Guerra nas Estrelas e o terrível Moulin Rouge, Amor em Vermelho, adotou, ano passado, uma menina da Mongólia. Talvez para fazer companhia ou servir de brinquedo para seus dois filhos naturais.

Meg Ryan, aquela dos famosos gemidos orgásmicos de Harry e Sally - Feitos um para o outro, é dona, digo, mãe adotiva, de uma chinesinha, adotada em 2007.

Não sei se nossos astros e estrelas de telenovela andam adotando. Se não estão, devem. Já. É moda e faz um bem danado ao meio ambiente e à crise econômico-financeira que assola o mundo. Quase comparável ao etanol. Faltou cintura à gente boa do G20. Nem constou da agenda, nem discutiram a adoção como solução parcial à problemática global. Mereciam uma boa "taserada".