Caixinha, obrigado!

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Governar é deixar o alto cargo e sair por aí discursando. Sobre tudo. Vale o coringa. Dá uma fortuna. Principalmente, se o ex-líder tiver sido um vexame em matéria de governo.

Ninguém deixou as rédeas do poder com índice de popularidade mais baixo do que George W. Bush. Só que o danado, depois de 8 anos fazendo amizades nos círculos que se dizem acadêmicos, está faturando alto e gostoso.

Menos de três meses de praticamente ser varrido da Casa Branca e o danado está espalhando discursos a uma média de US$ 150 mil por meia-hora, mais ou menos, de ponderações sobre o poder ponderadas e postas no papel por uma boa equipe de redatores de, calculo, segundo time.

Digamos que ele pague à turma alfabetizada uns 20% do total. O restante dá e sobra para alimentar durante uma ou duas semanas a coleção de cavalinhos do ex-presidente, agora mero - mero? - fazendeiro no Texas.

Uma perguntinha: quem paga para ouvir Bush falar? Nem mesmo chega a ser puxação de saco. É pura e simples burrice mesmo. Falta do que fazer. Sobre "Armas de Destruição em Massa" (WMD) juro que Bush não fala. Minto. Tudo isso se passa nos Estados Unidos. Volto atrás. Pode sim ser sobre as WMD.

Por falar em Armas de Destruição em Massa (AMD). Sem aspas e acronomizando em português, para desarmar mais ainda sua comprovada inexistência.

Quem está com a bola branca e a nota preta nesse setor é o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Trata-se do discursante mais bem pago do mundo. Enfim, o Reino Unido pega um primeiro lugar. Na boca riquíssima do circuito internacional de palestras, Blair outro dia mesmo, neste começo de abril, faturou perto de US$ 900 mil por duas palestras de 30 minutos. Dá uns bons, uns excelentes US$ 9 mil por minuto. A dinheirama foi faturada numa visita de 36 horas às Filipinas, onde nem hotel o excelentíssimo "ex" teve que pagar. Ficou hospedado na embaixada britânica.

Blair não deve ter mencionado nem as ADM nem os célebres 45 minutos com que Saddam Hussein conseguiria armar e empregar as armas. Nucleares, claro. Foi desmentido quase que na hora por inspetores oficiais encarregados de manter um olho no Iraque e o que nele se - perdão - armava.

Não, não. Blair em sua oratória ficou distribuindo jóias como "a política é importante, mas muito do que com ela se passa não é grande coisa". Mais: "A religião pode ser uma fonte de inspiração ou uma desculpa para o mal".

Pensar que esse mesmo discurso ou palestra já deve ter sido pronunciado algumas dezenas de vezes em dezenas de países dá vontade de voltar contra a própria cabeça uma pequena arma de destruição pessoal.

Calcula-se que Tony (em política, nunca confie em um "Tony"; numa banda de rock, tudo bem) Blair já embolsou mais de 20 milhões de libras desde que lhe arrancaram as rédeas do poder das mãos há mais de dois anos. É dinheiro. Tudo para palestras com títulos feito "O Líder Como Gerador de Nações numa Época de Globalização."

Bill Clinton, mentor e articulador das manobras palradoras de Blair, ao menos parou de levantar seus habituais US$ 150 mil por monólogo desde que sua senhora foi contemplada com um alto cargo no governo de Barack Obama. Os americanos têm seus limites. Limites vastos, mas limites.

Agora, é sentar e esperar 4 ou 8 anos para pagar os US$ 350 - esse o preço normal de ingresso - que lhe darão o direito de ver e ouvir Barack Obama, ou senhora, falando sobre... sobre o que bem entenderem, ora bolas!

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