Celebritite aguda

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Começando com uma não-celebridade: Christopher Lasch. Historiador, norte-americano. Em 1979, ele esboçou um diagnóstico da sociedade dos Estados Unidos como uma "cultura do narcisismo".

Passados 30 anos, dá perfeitamente para se afirmar que a moléstia - e não há dúvida tratar-se de moléstia - se espalhou pelo mundo inteiro. Lasch ponderou ainda que esta cultura se caracteriza por uma relação simbiótica entre celebridade, mídia e audiência, o que, por sua vez, leva a uma definição narcisista de personalidade.

Antes de passarmos a bola para Naomi (é oxítona, hem) Campbell, fiquemos mais um pouquinho com o historiador. Escreveu ele o seguinte: "A mídia dá substância e, assim, intensifica os devaneios de fama e glória, encorajando a pessoa comum a se identificar com astros e estrelas e a odiar o rebanho da multidão, o que torna cada vez mais difícil o processo de aceitar a banalidade da existência do dia-a-dia".

O mundo inteiro, via televisão, tem o seu equivalente aos velhos programas de calouros, só que agora incrementados. Alguém na distinta plateia se lembra do rádio e A Hora do Pato? Os calouros de Ary Barroso? Flávio Cavalcanti e seus jurados amestrados? Multipliquem por mil, acrescentem cores e aí estamos: exatamente onde estávamos.

Outro dia mesmo, uma senhora britânica, beirando os 50 anos, de aspecto e apresentação classe operária, abriu a boca num desses programas milionários em audiência, cantou razoavelmente em inglês uma miserável canção francesa do musical Les Misérables e em menos de 24 horas virou fenômeno mundial. Ou seja, celebridade. As devidas aspas ficam por conta da disposição de cada um.

Uma mocinha também de classe operária - quase um xingamento aqui no Reino Unido -, Jade Goody, participou de um Big Brother mais notório que os outros. Foi por uns tempos a mulher mais odiada do país. Exemplo vivo de ignorância e falta de modos. Levou sua celebridade a outras versões do programa. Até na Índia. Acabou diagnosticada com câncer no útero. Vendeu e promoveu sua doença, para fins beneficentes, claro, casou-se, foi capa de tudo quanto é revista, primeira página de tudo quanto é jornal, ganhou programa próprio de televisão e, muito moça ainda, morreu.

Coitada. Mesmo. Sem sacanagem. Foi, e ainda é, das maiores celebridades recentes da Grã-Bretanha. Já se fala num musical a respeito de sua vida, a estrear dentro de alguns meses.

O povão, zi bigui pípul, ulula, bate palmas e pede bis. Há uma grande fome, uma enorme sede de celebridades. A "celibrocacia" está à solta. Ou a "celebritite". Como quiserem. Reações fervorosas ao fenômeno. Descobriram que qualquer idiota pode ser celebridade. Todos então à fila de inscrição nesse ou naquele outro programa de calouros. Há de tudo para todos os tipos de imbecis.

Não esquecer de forma alguma o que as celebridades 3 estrelas, como restaurantes do Guia Michelin, andam espalhando por aí em matéria de besteira. Brangelina, ou o casal Pitt-Jolie, praticamente anexou a Namíbia.

Madonna se apropriou da kabbalah confundindo tudo, além de ensaiar novas investidas adotivas na República do Malauí. Sharon Stone, cruzando as pernas, ensaia tolices inomináveis no Oriente Médio e na forma como a China trata o Tibete. Tola. O Tibete pertence a Richard Gere, como todos sabem.

Nem vou tocar, que me falta estômago, nos roqueiros. Prefiro encerrar estas divagações com minha celebridade predileta - e de muitos brasileiros também - que é a Naomi "Oxítona" Campbell. Sozinha, ela inventou e patenteou a agressão contra os serviçais mais próximos, ou à mão, da personal trainer à comissária de bordo.

Taca Ficha, Naomi, taca ficha! Calibra a mira e celebriza para valer esse troço aí!

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