Uma história de horror: Londres 23ºC

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Há coisa de uma ou duas semanas, andou fazendo aqui nesta cidade perto de 23ºC durante vários dias seguidos. O que, para mim e minha gata, é o propalado calor senegalesco. Foi um horror.

Depois, neste começo de junho, os anjos bundudinhos que sopram os ventos que determinam as temperaturas pelo mundo afora parece que se apiedaram desta cidade, destas ilhas e deram uma colher de chá tépido. As coisas andando sob um solzinho simpático e os termômetros indicando mais ou menos uns 18ºC. Assim, sim. Dá para se viver.

Em Londres, qualquer temperatura acima disso torna impossível qualquer coisa parecida com vida civilizada. O Rio de Janeiro, Dacar (a capital do Senegal, de triste fama), Caracas, Catar, tudo isso leva jeito para esbarrar nos 40ºC e por aí afora. Estão, seus habitantes, como poucos, preparados para o aquecimento global que vivem nos garantindo que já começa a nos rondar.

Vou direto ao assunto. Os ingleses não têm o menor jeito para o calor. Já se deram bem com o fog e a falta de condições sanitárias mínimas. Até o notório incêndio de 1666 acabou dando aos londrinos uma certa bossa, um ginga toda especial. Os grandes desastres - a peste bubônica, por exemplo - emprestaram-lhes todas aquelas qualidades que, supostamente, os britânicos esbanjam na hora de um Titanic esbarrar num iceberg ou uma Luftwaffe despejar morte e destruição pelo país: a compostura, o fair play, a altivez, o humour.

Agora, botem um calorão - e 23ºC, repito e insisto, é um calorão - e eles marcam bobeira, ficam todos meio idiotas. Em suas casas e, principalmente nas ruas, ficam parecendo gente participando de uma edição especial do Big Brother. Escalar os Himalaias, dar a volta ao mundo, atingir os Polos Norte ou Sul, de canoa ou a pé, é com eles. Só não sabem ir à praça na hora do almoço durante o verão.

Todos os anos, tendo começado em 1968, eu acompanho, petrificado de horror, os ingleses lidando com o calor numa patetice e falta de jeito de dar inveja às melhores chanchadas do Zé Trindade ou do Ankito. Lá estão eles nas praças. Tiraram a camisa, expuseram suas costas brancas e perebentas ao Sr. Sol, e, agora, rolam na grama por sobre embalagens de batatinhas fritas, sanduíches e cervejas.

As mulheres perdem todo o pudor e levantam as saias do tornozelo gordote até o joelho rechonchudo - e de frente para o monarca do momento, a que chamam também, como nós, de astro-rei. São ousadas diante da trama tropical dessa blitz. Como o clima escaldante perfaz seus dois ou três ataques por ano sem aviso prévio, elas não trouxeram nenhum creme ou loção com qualquer coisa que lembre o fabuloso fator 8. Nem mesmo os fatores 6 ou 10.

Uma vez, creio que nos anos 70, passei de raspão (estava de carro a caminho de Amsterdã) por uma praia inglesa em julho. Esqueci o nome, tão grande foi o trauma. Sei que não era Blackpool. O espetáculo mais triste que já presenciei, ainda que de raspão, do incêndio do Vogue à derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã em 1950.

Quem reclama das fotos de guerra e dos filmes de horror de Sam Raimi ou George A. Romero nunca viu um inglês de short até a batata da perna, seus pés matraqueando nas mais ilegítimas Havaianas já vistas nesta vida. Não importa a idade, eles enchem um balde de areia num canto da praia e o despejam cem metros adiante. Numa das mãos, uma pazinha. Homens barbudos, cobertos de tatuagens (ah, os ingleses e suas tatuagens! Esse é um poema épico a ser discutido mais tarde), 3 latas de cerveja pegando um solzinho ao lado da barraca com as cores da bandeira britânica.

Os ingleses e suas sandálias. Já disse um espirituoso, nascido nestas terras, que Jesus Cristo cometeu um de seus raros enganos quando entrou na loja para comprar sandálias.

Digo eu, sempre um estrangeiro, que não se deve nunca, nunca, nunca olhar para os pés descalços de um inglês. Sou capaz de jurar que atacam e mordem. Lembram belicosos crustáceos prontos para dar o bote. Os das mulheres também. Principalmente aquelas cujo dedo mindinho do pé é uma minhoquinha quase invisível com um fiapo vermelho de esmalte cobrindo toda sua extensão.

O verão inglês só tem uma solução: dar uma ziquizira no tempo e torcermos todos - para evitá-los, qualquer sacrifício vale - para o arrefecimento global.

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