Obama, Vila Sésamo e eu

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Lá está nos jornais americanos: Barack Obama é o primeiro presidente norte-americano que cresceu vendo Vila Sésamo.

Num ou noutro registro, a nota é aprofundada. Na revista Time do dia 15 de junho, por exemplo. Obama, entre suas muitas posturas (e há críticos que dizem que ele não tem mais que isso), deixou patente que, ao contrário de Clinton e Bush jr, ele não assistia ao programa com ou por causa dos filhos. Obama é sincero. Vila Sésamo era uma das coisas que não perdia na televisão. Agora, então, sempre segundo a revista, o popularíssimo presidente estaria "aplicando as lições aprendidas no show na vida prática e nas maneiras mais sutis".

O que me preocupa nisso tudo é se o nosso presidente, outra unanimidade, Lula, cresceu diante do Vila Sésamo que a Rede Globo exibia. Principalmente em 1976. Fico me indagando se nosso presidente teria passado algum tempo diante das personagens tão populares entre nós: Garibaldo, Gugu, Funga-funga e tantos outros.

Voo para o Google para me certificar da idade de nosso líder. Em 1976, Lula teria 31 anos. Então, não. Não ia de Vila Sésamo. Estava mais ocupado aprendendo com outras durezas o que é a vida e de que se trata.

Por que me preocupo? Porque acredito que, no fatídico ano de 1976 (em 1977 a Globo não levou ao ar o programa), eu posso ter ajudado, se não ter sido parcialmente responsável, pelo desencaminhamento de uma boa parte da geração que recebeu um pouco de sua instrução divertindo-se com os bonecos da Globo.

Seguinte: eu era redator da Rede Globo. Fui demitido, justamente, friso, núcleo (como chamavam) após núcleo, sempre por incompetência. Foram quase quatro anos em que, bem pago, fracassei miseravelmente, como uma personagem do repertório de Nelson Gonçalves ou Dalva de Oliveira. Passei pelo Satiricom, Moacyr Franco Show, Fantástico e fui terminar meus dias globais na mais que aprazível companhia dos queridos amigos Ronaldo Bôscoli e Luiz Carlos Miéle escrevendo roteiro e texto, ou tentando e não conseguindo, para o programa Sandra & Miéle. Ronaldo era meu companheiro de "irredação".

Dezembro de 1975. Reunião na sala do Borjalo. Eu estava na bica de entrar de férias, pois, embora eu não as merecesse, a Globo trabalhava no sério. Meu destino era Nova York. Entra o lendário Boni na sala. Olha em torno para todos os presentes. Seu olhar bate no meu. Pergunta se eu quero escrever quadros para o Vila Sésamo.

Explico que eu estava já de malas prontas para me mandar de férias para os "Esteites". E o Boni na bucha: "Dou duas passagens de ida e volta se você escrever 60 quadros para o Vila Sésamo".

Sim, era um profissional, o Boni. Sim, sabia levar a gente na conversa. Uma boa, uma bela conversa. Resumo a história. Fui para São Paulo com hospedagem paga no Hotel Saint-Raphael (acho que se escrevia assim). Uma máquina de escrever no quarto. Após uma tour do centro do Vila Sésamo, tocado por uma rapaziada simpática e de talento, trocamos ideias e eu parti para o trabalho. Para os 60 quadros.

Armei-me de bolinha e uma garrafa de uísque. Eu ia escrevendo e, prontos mais de 3 quadros, ligava para o pessoal do programa. Havia urgência na preparação do programa. "Tem mais tantos quadros prontos". Eles mandavam uma caminhonete, ou van, vir pegar.

Assim foi durante dois dias, duas noites, duas garrafas de uísque, dois tubinhos de, acho, Pervitin. Missão cumprida. Ainda bolei dois personagens novos, pois fazia parte do trato: o "Edifício", vivido com animação pelo Flávio Migliaccio, e o "Mágico", também contando com os vastos recursos histriônicos do Paulo José.

Fui para Nova York. Voltei e, morto de vergonha, vi umas duas ou três vezes, já em casa, um pouco do "fruto do meu labor". Até hoje sinto um frio na boca do estômago. E, para me chatear, e chatear vocês também (podem conferir), deem uma chegadinha ao YouTube, taquem lá na janelinha de busca "vila sésamo abertura" e meu nome surge virtualmente imortalizado, aos 1 minuto e 23 segundos, juntamente com os de Dinah Silveira de Queiroz e outros luminares.

Peço perdão se algum mal causei a um futuro presidente de nossa república. Peço perdão a qualquer moleque distraído que tenha sofrido qualquer um dos 60 quadros sofridos, pois o desconforto e o sofrimento foram seus motivadores. Culpem, como eu culpo, para livrar minha cara e minha alma, o álcool, o estupefaciente. Conforme o velho bordão: perdão, leitores.

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