Ele chegou

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

De manhã,sentado no metrô diante de mim, um chapéu cor de rosa, com florzinhas e filó, medindo uns bons dois palmos de altura, tem debaixo de si uma senhora ou senhorita, que, desta distância, e nestas circunstâncias, não dá para se verificar direito.

Deve estar indo, ou se preparando para ir, a Royal Ascot, onde, presumo (eu vivo de presumir), deve ser Ladies Day. Traduzo em miúdos (eu vivo em miúdos): corrida de cavalinhos, tradicional, um dia dedicado às mulheres. Não, elas não competem. A não ser nos chapéus. Mais: o chapéu e ela estão algo atrasados. Ladies Day foi semana passada.

A caminho do torneio de tênis em Wimbledon (pronuncie "Wmbldn") não pode ser. Lá seria casquete.

Vi o meu primeiro chapéu com dama da estação. É, é verdade. Agora, não tem mais como enganar. O verão chegou.

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Nas ruas, de bermudas e com mapas na mão, ósquilos (pronunciam tudo mal) escuros, americanos gesticulam dramáticos, como se matando moscas britânicas, e questionam tudo em alta decibelagem. São turistas perigosos como bombas de fragmentação no Iraque e no Afeganistão. O verão invade as ruas.

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Uma revista feminina oferece com cada exemplar um par de óculos escuros inteiramente grátis. De grife barata. O verão está nas bancas.

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16 de junho, o Bloomsday (Bloomsdia, como traduzo eu), passou e não vi nada em jornal nenhum. O dia em que transcorre a ação do romance Ulysses, de James Joyce. 16 de junho de 1904. 105 anos. Espero que em Dublin as joyceanas sociedades tenham comemorado como sempre o evento: muita cerveja preta e pancadaria pra valer. O verão provoca um tipo especial de literário esquecimento.

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Uma equipe do hospital da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, gastou tempo e uma nota com escaneadores MRI para chegar à conclusão de que o álcool – qualquer tipo de álcool, da cerveja preta irlandesa à loira cerveja alemã – leva seis minutos para subir direto às cabeças dos biriteiros.

Tivessem me mandado um e-mail perguntando, eu explicaria que é isso mesmo, coisa entre 5 e 10 minutos. Nem consideraram a hipótese de se tomar de enfiada pelo gargalo. Aí são 25 segundos. O verão dá sede e burrice na maior parte das pessoas.

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Em Calais, logo ali do outro lado do canal da Mancha, anarquistas ameaçam mobilizar migrantes e mandar tudo para o Reino Unido. Dois mil migrantes encontram-se espalhados pela empombada cidade portuária francesa. Os locais dizem que eles, além de serem romenos e ciganos, enchem o saco e empanam a beleza da cidade, por eles tida como aprazível. A polícia francesa já pediu reforços.

No lado de cá do canal, os ingleses, armados de binóculos poderosos, acompanham interessados os movimentos. É sempre verão, e sempre cruel, para com os cerca de 42 milhões de migrantes do mundo inteiro, segundo cálculos da ONU.

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Da minha sala, no fim do dia, a que dá para os jardins comunais, vem o cheiro insuportável de churrasco dos vizinhos enquanto, depois de tirar o celofane, como meu sanduíche de queijo e presunto, que comprei no indiano da esquina. O verão nos torna impacientes e mal-humorados.

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No Reino Unido, uma pesquisa (há, no verão, um decréscimo de 25% nas famosas e habituais sondagens britânicas) revela que os gorjeios do Twitter constituem os que menos merecem a confiança dos habitantes desta ilha. Argumentam os pesquisados que um Twitter permite às pessoas assumirem qualquer identidade. O website em questão ganhou do YouTube e do Facebook. Conforme disse uma figura:

Twitter? Isso é coisa de presidente norte-americano quando não está matando mosca.

O verão não gorjeia aqui como gorjeiam lá.

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Um biólogo ligado à evolução das espécies, Dr. Nathan Bailey, da Universidade da Califórnia, veio de toda essa lonjura para os jornais distribuídos gratuitamente no metrô de Londres apenas para informar que, no mundo animal, ser gay é uma boa.

Os albatrozes, principalmente, desmunhecam – se isso é possível para eles – de forma a dar inveja a qualquer pavão. O verão é um albatroz que nunca passou por uma rima de Baudelaire.

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O eminente jornalista Gay Talese, e iminente para o Brasil a partir de 1 de julho, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2009, leva a taça da melhor frase deste verão, e possivelmente de alguns outros também. Disse ele:

"A internet é o fast-food da informação."

E disse-o bem.

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