A confusão científica

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

A ciência e os cientistas têm um objetivo único: desnortear-nos a todos. A ciência continua sem conseguir explicar o que é e como funciona a aspirina. Soltem um cientista num laboratório bem provido e ele conseguirá seu objetivo. Que é aparecer com uma novidade todos os dias nas primeiras páginas dos jornais.

A ciência e os cientistas começaram a nos atormentar com o ovo. Para eles, nunca houve o dilema de quem nasceu primeiro, se a galinha ou o ovo. Se estou bem lembrado - e estou, já que a ciência me recomendou cenouras para a memória - minha primeira perplexidade diante do mundo que eu julgava explicável à luz e aos holofotes dos ilustríssimos senhores cientistas deu-se com o ovo.

O ovo, em minha infância e primeiros anos de juventude, era a melhor coisa do mundo para a saúde. Segundo a ciência, que todos julgavam incapaz de errar ou, como um mau goleiro, engolir um frango. Ou, no caso, uma galinha de bom tamanho. Passam-se alguns anos e o ovo é a pior coisa do mundo para a humanidade. Ovo mata, praticamente, diziam os cientistas. Os assustadores cientistas.

O mesmo deu-se com a manteiga. No frigir dos ovos, tudo que era bom para nós virou péssimo e tudo que era péssimo virou ótimo. A tentativa de um patético jogo de palavras com ovos e frituras é uma prova viva de como me alimentei, ou fui alimentado, de forma cientificamente incorreta.

Desde a bomba atômica, parece que a ciência e seus sacerdotes, os cientistas, parece que se embrenharam em furiosa rixa de relações públicas. Fazem moita, evitam espaços midiáticos, quando bolam novas armas, novas formas de matar mais e mais rápido. Agora, dêem uma verba decente para uma proveta - esse seu substantivo coletivo - de cientistas e daí então sáiam da frente. Vem besteira que não acaba mais.

Apenas nas primeiras semanas de julho, a ciência nos deu, que eu me lembre, as seguintes novidades: a masturbação múltipla e diária em todas as idades faz um bem extraordinário à constituição física e psicológica da humanidade. Falar muito palavrão em voz bem alta é a última palavra, se não no convívio social, com toda certeza na intimidade do bem-estar físico e mental do desbocado.

Outras configurações científicas com o mesmo teor de patetice. A mais recente com a missão especifica de estragar as férias de todo mundo. Principalmente dos branquelas aqui do hemisfério norte à beira de se despencarem nas férias de verão. Lá estava na primeira página do The Sunday Times, em 8 colunas, com ilustração (moça portando surfboard na cabeça, como uma baiana) a cores, uma manchete que, resumindo, dizia que eram exageradas as afirmações de que o sol era nocivo à saúde das pessoas. Mais: a ciência tinha novas pistas para o câncer de pele.

Muita gente jogou fora seu creme de proteção, de fatores 4 a 16, e, munida de recorte, mandou-se para as terras de muita praia e sol rolando adoidado. Todo mundo sentadão na areia, ou na piscina, olhando de cara, ou cara com óculos escuros, o imbecil do sol que passara a perna em todo mundo esses anos todos. Eu digo óculos escuros por que a ciência ainda não liberou para todos os territórios a desnecessidade de óculos escuros no encarar o sol. Questão de tempo apenas.

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