Neo-Obama e o fim da História

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão

A primeira vez que Francis Fukuyama entrou na sala do secretário de Estado Americano ele tinha 29 anos. Ficou mais fascinado com a mobília do que com o político.

Toda americana do século 18. Nunca teria dinheiro para comprar móveis originais e decidiu ser diplomata-marceneiro. Um homem obstinado.

Hoje quase toda a sua casa é decorada com móveis feitos por ele a mão, mas a mulher e os filhos reclamaram tanto do barulho e da serragem que ele vendeu todas as suas ferramentas.

Na época, Fukuyama era membro do staff de planejamento da política externa do departamento de Estado, mas sua grande façanha foi formular a doutrina Reagan que, segundo os conservadores, derrubou o muro de Berlim, acabou com a Guerra Fria e extinguiu o comunismo em quase todo mundo em menos de dez anos. Levou menos tempo para redecorar a geopolítica mundial do que levou para redecorar a casa.

Fukuyama não foi o fundador do movimento "neocon", mas foi uma de suas vozes mais articuladas, originais e influentes. Como cientista político, ele ficou conhecido no mundo com a publicação de The End of History and The Last Man, em 1992, onde explica porque a democracia liberal venceu o comunismo.

Era um conservador com "C" maiúsculo e em 1997, membro ativo do Project for the New American Century. Foi um dos assinantes de uma carta ao presidente Clinton recomendando que apoiasse os insurgentes que pediam a queda de Saddam Hussein. Depois dos ataques terroristas do 11 de setembro, assinou outra carta dirigida a George W. Bush pedindo a captura ou a morte de Bin Laden e apoio militar/financeiro para derrubar Saddam Hussein, "mesmo se as provas não o implicarem no ataque às torres".

"Neocon" não mais. Durante uma entrevista para o programa Milênio na sala dele, na The Paul H. Nitze School of Advanced International Studies, ele me contou que mudou de ideia e abandonou Bush pelas extravagâncias militares no Iraque, pelo esbanjamento econômico e pela falta de controle da Wall Street nos seus oito anos de Casa Branca.

"Os republicanos de hoje só tem duas ideias para governar: reduzir impostos e diminuir o governo. Reduzir governo nem sempre é a melhor solução. As reduções de impostos criaram este enorme déficit e a falta de controle de Wall Street permitiram o delírio financeiro que gerou esta grande recessão".

Na última eleição, o pai da doutrina Reagan e campeão dos "neocons" votou em Obama.

O universo acadêmico e cultural de Fukuyama é vasto. Já publicou vários livros, inclusive um científico – Our Posthuman Future - sobre consequências da revolução na biotecnologia.

Foi analista da Rand Corporation, esta da direção de vários centros de estudos influentes, entre eles o Inter-American Dialogue, e seu livro mais recente, de 2008, compara nossa pobreza com a riqueza americana.

Falling Behind: Explaining the Development Gap Between Latin America and the United States onde explica porque a América do Sul, tão mais rica do que a do Norte, em pouco mais de cem anos ficou muito mais pobre.

Em resumo, a culpa é da nossa instabilidade política, uma herança dos nossos colonizadores. Enquanto os Estados Unidos tiveram dois terremotos políticos internos – a Guerra de Independência e a Guerra Civil – os países da América Latina passaram por dezenas de estremecimentos.

Como Espanha e Portugal, viviam em transições. O Brasil, com apenas dois governos FHC e Lula – se chegar ao final – é uma das poucas exceções no continente latino-americano. Um exemplo de estabilidade. E vai bem.

E como a China politicamente comunista se enquadra nesta vitória da democracia liberal e no fim da História?

"Eu acho que o modelo chinês não vai alcançar a curto prazo o nível de desenvolvimento dos Estados Unidos e da Europa. Será preciso sacrificar várias gerações."

A história ainda não chegou no final.