A dose de Scott

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão

Terrível. Acordar com ressaca sem ter bebido. Já tive noites podres mas foi a primeira vez que um Scott - sem álcool - arruinou meu sono.

O epicentro do terremoto político de Massachusetts desabou sobre o partido democrata inteiro e em cheio na Casa Branca.

Há uma semana a cadeira do Senado vagada pela morte do senador Ted Kennedy, cujo sonho político era a reforma da saúde, continuava sagrada a espera de um sucessor democrata, no caso uma sucessora, Martha Cloakey.

As possibilidades republicanas eram tão remotas e improváveis, confirmadas pelos números nas pesquisas, que a candidata achou que não precisava sair de casa. Quando saiu, em pânico, deu vários vexames - entre eles não soube soletrar o nome do próprio Estado - já era tarde. Scott Brown, o garanhão republicano corria junto nas pesquisas e ganhou com corpo inteiro de vantagem. E que corpo!

Quando tinha 22 anos Scott Brown posou nu para a revista Cosmopolitan com a parte pudenda coberta pelo braço e o título: "O Homem Mais Sexy da América".

Isto foi em 82, quando ele tinha 22 anos e posava como modelo para pagar a faculdade.

Os inimigos políticos usaram e abusaram da foto para destruí-lo. Mais do que perdoado, foi promovido pelo eleitorado de obscuro senador estadual a nova sensação republicana. Sarah Palin que se cuide. Scott Brown galopa, bem vestido, em direção a Washington para destruir a reforma da saúde dos democratas e descarrilhar o governo Obama. Com a vitória dele, os democratas perderam a maioria de 60 votos que impedia manobras de bloqueio de aprovações de leis no Senado.

Scott Brown nunca foi brilhante em sua carreira de advogado nem nos seis anos de político estadual. Como oficial da Guarda Nacional, teve uma conexão forte, nada excepcional, com os veteranos de guerra.

Agora, Scott Brown, cujo único momento de fama tinha sido posar nu (outra minifama vem da filha Ayla, que cantou no programa American Idol) é o novo herói e gênio politico republicano. Ninguém mais teve a visão e o peito - e que peito - de entrar neste páreo. No final da campanha, choveu dinheiro de fora do Estado em cima dele. Obama foi lá no último domingo tentar salvar a Martha. Não mexeu nas pesquisas.

Scott Brown veio de uma família modesta e os pais se divorciaram quando tinha um ano. Pai e mãe recasaram três vezes e Scott passou por algumas turbulências na juventude. Foi preso roubando uma loja quando tinha 12 anos e a sentença do juiz foi escrever uma composição de 1.500 palavras sobre “Como gostaria que os pais e os colegas fossem vê-lo jogar beisebol na prisão”.

Não teve outros problemas com a lei. Ficou tão marcado pela sentença que um dia, quando percebeu que tinha saído do supermercado sem pagar por uma caixa de cereal, voltou correndo e pagou: "Nunca me esqueci do juiz".

Quando estava no segundo ano da escola de direito, em vez de arranjar um emprego durante as férias de verão, como a maioria dos colegas, se inscreveu na Guarda Nacional porque ficara impressionado com o trabalho deles limpando as estradas depois de uma nevasca que paralisou o Estado em 78.

Hoje, como tenente-coronel da reserva, defende militares acusados dos mais diferentes crimes. Como oficial da Guarda Nacional participou de duas missões internacionais. Uma no Cazaquistão, onde passou uma semana com outros militares e civis da região discutindo preparações para emergências em casos de tragédias naturais e terrorismo.

A outra foi uma curiosa missão de uma semana no Paraguai, em 2005, para promover principios de justiça e valores americanos.

Hoje, cada líder democrata tem dezessete dedos apontados para os culpados pela tragédia política de Massachusetts e a derrotada aponta os dela para a liderança do partido. A Casa Branca assume parte da culpa e transfere a outra parte para a “raiva popular, a mesma raiva que tirou os republicanos e me elegeu”, no mea culpa de Obama.

É isto aí. Deveria ter imitado o exemplo Reagan que também estava na fossa dos índices no fim do primeiro ano de mandato e passou anos culpando o governo anterior pelos problemas. Deu certo. Aquela fórmula da mentira repetida 'n' vezes que vira verdade. Uma pena, porque no caso de Obama a herança de Bush é realmente maldita.

Se eu perdi o sono, posso imaginar a noite dos caciques do partido e dos inquilinos na Casa Branca.

E se Scott Brown, um zé-mané republicano que nunca fez nada importante nos seis anos como politico, conquistou a cadeira que Ted Kennedy ocupou durante 46 anos com uma campanha chinfrim na base do “contra” reforma da saúde, impostos e gastos, a mais velha das fórmulas republicanas, nenhum democrata está garantido nas próximas eleições. É hora de rever todo o plano.

Para quem é do partido otimista, a dose do Scott pode ter sido uma benção.

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