Página 1, nota seis

Em junho o deputado Anthony Weiner roubou as manchetes do banqueiro e ex-futuro presidente da França, Dominque Strauss-Khan. Fora das primeiras páginas, dois assuntos menores eram irresistíveis para jornalistas e quem se interessa por jornais: a saída do editor executivo do New York Times, Bill Keller - saiu porque quis e continua no Times - e a estreia do documentário Page One, sobre o jornal mais influente do mundo.

A crítica de Page One no jornal, escrita por um famoso freelancer que confessa não conhecer a história nem as picuinhas do Times, faz picadinho do documentário. A crítica merece nota 5. O documentário merece um 6. A intenção do diretor não era contar a história do jornal, do seu dia a dia nem como é feita a primeira página.

Há um pouco de tudo isto mas o foco do documentário é a editoria de mídia e a luta pela sobrevivência do jornal na blogosfera e nas novas mídias. Só em 2009 o Times perdeu 30% do faturamento publicitário convencional. Precisa de novas novas fontes.

Nunca entrei numa sede de jornal tão magnífica e tão zen quanto à do Times. Com todo seu modernismo, seus vastos espaços, nos corredores há uma calma de um templo budista. Conheci alguns aqui e no Japão. Silêncio quase absoluto, luz natural combinada com luz artificial. Ninguém às pressas, nenhum boy, nenhum garçom com café e, tenho quase certeza, nenhuma gravata.

Esta caríssima maravilha arquitetônica, depois de anos de construção, foi vendida em 2009 pelo Times e realugada pelo próprio jornal para pagar as contas sufocantes. O corte de pouco mais de cem jornalistas, assombroso, não bastava para pagar as contas.

O bilionário Carlos Slim entrou com um empréstimo de US$ 250 milhões. O Times estava mais em uma cisterna do que em um buraco.

O principal personagem do documentário é David Carr, um jornalista intrigante, mas com um peso excessivo na história. Carr é o colunista de mídia do jornal. Foi viciado durante anos em crack, cocaína e álcool, vendeu coca para sustentar o vício e as duas filhas que criou sem a mãe, ficou sóbrio durante 14 anos, recaiu no álcool quando foi cobrir o furacão Katrina em Nova Orleans, confessou seu vício ao chefe, reabilitou-se numa clínica e desde então vive sem álcool e drogas.

A história do colunista está num livro-confissão, The Night of the Gun, onde ele admite, e amigos e ex-mulheres confirmam, que a cocaína, o crack e o álcool atrapalharam a memória dele. Vários fatos não batem.

Embora intrigante e contundente, Carr não reflete o drama do Times de hoje. A principal historia é de como o editor Bill Keller, que renunciou no começo de junho depois de dirigir o jornal durante a pior crise financeira da sua história desde a Grande Depressão, resistiu aos ataques da direita conservadora e como o jornal se adaptou, desde 2008, à blogosfera.

Bill Keller comandou esta expansão do jornal pelas novas mídias. O Times hoje tem mais de 90 blogs. Quase todos os seus repórteres e colunistas blogam, tuitam e facebucam. A decisão não foi dele, mas durante durante sua chefia o jornal decidiu cobrar pelo acesso online.

E esta é uma questão de vida ou morte para o Times e todos grandes jornais americanos, que se perde no Page One. A bem da verdade, quando o documentário foi filmado, Bill Keller não estava de saída, Jill Abrason não tinha sido promovida e não havia o acesso pago online.

Esta resposta não está no documentário, nem a saída de Bill Keller nem a entrada de Jill Abramson, a primeira mulher no comando do jornal. Ela quebra mais do que uma tradição de gênero. Até então, quase todos os editores-executivos do Times vinham de chefias das editorias de Cidade e Internacional.

Há controvérsia sobre o número de pagantes online e o número da queda dos acessos diários de não pagantes, mas o saldo, mesmo pela contagem baixa, é positivo.

O Times pode sobreviver e, mais uma vez, como modelo.

Sabemos que a imprensa escrita, seja jornal ou revista, está na estrada da morte. Sabemos que a estrada começou na web, mas não a que distância estamos do final do papel.

Quem é viciado no Times, como eu, sai do documentário desesperado por mais uma dose do jornal.