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23 de junho, 2000 Publicado às 23h00 GMT

 
Traficantes geram medo e solidariedade no Amazonas

A fronteira entre Brasil e Colômbia está na rota do tráfico

Iain Bruce, enviado especial a Tabatinga

"Agora no tem más, muy poquitinho. Antes sí, habia bastante." Um jovem colombiano dá uma resposta evasiva, em "portunhol", à pergunta sobre o aumento do tráfico na região.

Em Leticia, na fronteira com o Brasil, a primeira resposta é quase sempre essa. A um quilômetro dali, em Tabatinga, no lado brasileiro, faço a mesma pergunta a uma senhora trabalhando no mercado em frente ao porto da cidade.

Ela me olha e começa a rir. "Ah, eu não sei de nada. A gente não tem tempo de observar nada."

Finalmente, outro jovem abre um pouco o jogo. "Rapaz, tem. Mas é tudo oculto, né?"

Prosperidade

Leticia, capital do departamento colombiano de Amazonas, é uma pequena cidade na selva, com aspecto de prosperidade.

A riqueza se deve, oficialmente, ao monopólio do comércio do pescado. Quatro aviões de carga chegam diariamente de Bogotá.

Mas o espectro do tráfico está por trás de tudo nesta zona de fronteira. Tabatinga, do lado brasileiro, está em plena expansão.

Com 40 mil habitantes, já é maior do que Leticia. Mas a sua infra-estrutura é muito mais primitiva. Ficou como uma espécie de periferia da "Grande Leticia".

A culpa, segundo o prefeito de Tabatinga, é do governo federal.

O prefeito Raimundo Nonato (PTB), mais conhecido como Boi, diz que, nos últimos anos, as leis de proteção ambiental e indígena paralisaram as atividades tradicionais.

"As pessoas da região não podem tirar uma árvore, não podem matar uma caça, não podem pescar. Isso cria um problema. Precisam sobreviver."

Decadência

As queixas são grandes também com relação à decadência da Zona Franca de Manaus.

Muitas pessoas estão voltando para o interior.

Os índices de pobreza desta região do Alto Solimões estão entre os mais altos do Brasil.

Em algumas das comunidades ribeirinhas, a mortalidade infantil chega a 104 crianças por mil nascidas vidas, três vezes superior à média nacional.

Para o prefeito de Tabatinga, esse é um quadro que deixa sobretudo os jovens de Tabatinga - 75% da população - mais vulneráveis à ação do tráfico.

Um exemplo típico é o do jovem Walter.

Ele foi a Lima, capital do Peru, para terminar seus estudos.

Sem motivação

Voltou para Tabatinga e não encontrou um trabalho que interessasse, que valesse a pena.

"Todo o mundo quer ter uma moto, quer uma coisa para se mostrar. As pessoas querem ser alguém na vida. E, às vezes, só com o estudo, não conseguem."

Ele diz que não quer entrar no tráfico. Já viu o que aconteceu com muitos amigos dele. É um caminho do qual não tem saída. A droga é uma realidade em Tabatinga.

Walter diz que o rio se transformou num trajeto importante de saída da cocaína para a Europa e os Estados Unidos.

"A gente nem pode falar sobre essas coisas, porque aqui é uma cidade tão pequena. Se a gente fala muita coisa, perde até a vida. E a gente é tabatinguense e prefere guardar em segredo tudo o que acontece aqui em nossa moradia."

Solidariedade

Não é somente o medo que mantém as bocas fechadas. Há também um sentimento de solidariedade em torno do tráfico.

O padre Joseney, da diocese de Benjamin Constant, do outro lado do rio, na fronteira com o Peru, conta o caso de Wanderley, um traficante que voltou depois de passar dois anos preso em Fortaleza.

"A população fez uma grande festa para ele. A cidade parou, com música e dança. É que o fluxo de recursos que passa por aqui em grande parte provém do narcotráfico."

E ele adverte que, se não houver uma ação séria do governo federal para propor alternativas econômicas para a região, a situação vai virar explosiva.

"Do jeito que está o tecido social, daqui a dez anos, ninguém segura isto aqui. A não ser com uma repressão forte."

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