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03 de dezembro, 1999 Publicado às 12h00 GMT
Especial Chechênia

Como a guerra atingiu um vilarejo checheno


Tática russa: primeiro as bombas, depois as tropas

Por Tom de Waal, na Ingushétia, perto da fronteira com a Chechênia

Em frente a uma tenda na Ingushétia, refugiados chechenos estão costurando roupas para o inverno.

A tenda é agora a casa de uma família vinda do vilarejo de Samaski, na Chechênia.

O vilarejo fica apenas 25 quilômetros atravessando a fronteira, mas é um outro mundo, uma outra realidade.

Em tempos de paz, Samaski é um vilarejo de agricultores.

Há quatro anos atrás, durante a guerra da Chechênia anterior a esta, o local foi cena de combates ferozes.

Desta vez, os habitantes de Samaski dizem que, no final de outubro, eles tentaram fazer um acordo com os russos.

"Não havia soldados chechenos ou, como eles dizem, rebeldes na vila naquela época", diz Vakhid Derbyshev, um ex-policial.

"Os moradores com o chefe da administração tomaram a decisão de não deixar soldados entrarem em Somaski, para ter a garantia de que não heveria combates".

"Nós conseguimos ter alguma calma dessa forma, pensando que se não houvesse rebeldes chechenos na vila, os russos não iriam tocá-la. Era outono, as pessoas se preparavam para o inverno, se abastecendo de feno e madeira".

"E então, do nada, no dia 23 de outubro o bombardeio russo começou".

Bombas caíram sobre um local no qual não havia rebeldes, segundo os refugiados.

Na noite do dia 26 de outubro, Derbyshev tentou escapar com sua família de carro.

Quando estava já fora da vila, seus vizinhos trouxeram sua irmã, ferida na cabeça desesperada atrás de sua filha de 12 anos de idade.

"Quando ela recuperou a consciência, começou a falar: ´Não me deixem aqui, me levem para o porão, me levem para o porão", disse Derbyshev.

"E ela continuou perguntando sobre sua filha e dizendo: ´Minha filha estava comigo, minha filha estava comigo´. Aconteceu que elas saíram do porão quando pareceu haver uma calmaria. E naquele momento um foguete caiu no quintal, atingindo sua filha e sua cunhada que fugia da região de Naur. Ela tinha nove filhos".

"A menina morreu instantaneamente - nós só conseguimos achar sua cabeça e suas pernas - e a cunhada também foi feita em pedaços".

Bombardeio pesado

Pode ser que haja rebeldes em Somaski. Pode ser que não. O que é certo é que a população civil do vilarejo é a maior vítima dos ataques.

A organização de direitos humanos Human Rights Watch tem conversado com os refugiados chechenos nos últimos dois meses.

"Os refugiados que nós entrevistamos na fronteira com a Ingushétia relataram que as vias e cidades na região oeste da Chechênia e nos arredores de Grozny têm sofrido pesados bombardeios aéreos por semanas seguidas", disse uma das monitoras da organização, Cassandra Cavanaugh.

"A estratégia dos russos tem sido um bombardeio pesado por um bom período de tempo antes que as tropas se aproximem, assumam posição fora das cidades e tentem chegar a um acordo com a população mais velha para entrar sem resistência".

Em Samaski, ao que parece, o acordo não tem funcionado.

Uma das razões pode ser vingança.

Os russos perderam muitos soldados em Somaski durante a última guerra e quando eles finalmente conseguiram entrar na cidade eles atiraram granadas dentro das casa, matando muitos civis.

Os últimos bombardeios em Somaski deixaram uma nova leva de feridos.

Hospitais lotados

O hospital Sunzha, na Ingushétia, é o primeiro ponto de refúgio para muitos feridos que atravessam a fronteira.

Os estreitos corredores do hospital estão repletos de feridos.

Madina Avturkhanova tem 22 anos. Ela foi ferida na última guerra.

Agora ela está em uma cama de hospital e me pergunta: "Eu pareço uma terrorista?".

"Eu fiquei três dias dentro de um porão quando eles nos bombardearam com mísseis ininterruptamente. Na quarta manhã eu saí do porão e fui atingida. Meus dois braços e uma perna estão quebrados. Eu consegui alguma ajuda em urus-Martan e depois, no dia 29, eles abriram o corredor para a Inguhshétia e eu mal consegui chegar até aqui".

A organização Human Right Watch estima que dezenas de pessoas em Somaski foram mortas na última tragédia.

Desde então, a guerra se deslocou para outras cidades e vilarejos no interior da Chechênia.

Essas localidades estão ainda mais distantes da fronteira, dos hospitais e do mundo exterior.


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