'Sofri cinco abortos após ser agredida por meu marido enquanto ele dormia'

Andrew com seus filhos Direito de imagem Arquivo Pessoal
Image caption Andrew e Lindsey tiveram três filhos enquanto estavam casados

A britânica Lindsey Roberts e o Ministério da Defesa do Reino Unido estão em lados opostos de uma disputa judicial. Ela diz ter sofrido cinco abortos após ser agredida por seu marido, o militar Andrew Roberts, enquanto ele dormia.

Andrew entrou para o Exército aos 17 anos. Depois de integrar nove missões internacionais, duas delas no Iraque e três no Afeganistão, desenvolveu estresse pós-traumático, um distúrbio de ansiedade, e tentou se matar.

Quem sofre desse tipo de problema costuma se sentir isolado, irritado e culpado, ter recordações vívidas dos eventos que causaram o mal, como acidentes de carro, abusos sexuais, situações de combate e desastres naturais, e revivê-los em sonhos.

"Andrew teve seu primeiro pesadelo violento quando eu estava grávida de cinco semanas. Perdi o bebê", contou Lindsey em entrevista ao programa Victoria Derbyshire, da BBC.

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Image caption Andrew participou de nove missões internacionais pelo Exército britânico

Ela conta que os abortos decorrentes das agressões involuntárias ocorreram ao longo dos anos.

"Os episódio de pânico noturno não ocorriam a toda hora, então continuamos a dormir na mesma cama. Mas eu não conseguia prever quando aconteceriam."

Lindsey explica que perdeu os bebês "dias, semanas" após ser agredida. Ela ficava com hematomas por todo o corpo e mentia sobre como surgiram. "Não queria me meter em problemas. Dizia que havia caído na escada."

Em 2009, quando Andrew voltou de sua segunda missão no Afeganistão, Lindsey diz que passou a ser agredida três vezes por semana pelo marido em seus episódios de pânico noturno.

O militar morreu em um ataque do Talebã em maio de 2012, durante sua terceira missão no Afeganistão. "Ele era o cara mais gentil do mundo. Fazia de tudo por qualquer pessoa. Era carinhoso. Era o melhor amigo de todo mundo."

'O Exército sabia'

Lindsey engravidou oito vezes enquanto esteve casada com Andrew. Tiveram "três filhos lindos", hoje com 8, 10 e 11 anos. "Eles eram pequenos quando tudo aconteceu. Hoje, sabem o que se passou com seu pai e se lembram de alguns episódios."

Estima-se que uma a cada três pessoas que têm experiências traumáticas desenvolvem um distúrbio de ansiedade. Não se sabe por que algumas não são afetadas dessa forma.

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Image caption Andrew e Lindsey se separaram por causa do distúrbio de ansiedade dele

A situação de Andrew piorou em 2009. O casal se separou, mas permaneceu casado. Lindsey diz que o Exército estava ciente dos problemas mentais nos dois últimos anos de vida do marido.

"Ele estava muito instável. Teve de ser socorrido após algumas tentativas de suicídio. Com certeza eles sabiam", diz ela, para quem Andrew ainda estaria vivo se tivesse recebido o tratamento adequado.

"No ano anterior à última missão, ele estava com sérios problemas mentais. Ele tentou se matar. Há sinal mais óbvio do que isso? Deveria ter sido dispensado por razões médicas em vez de ter sido enviado para uma missão."

O Ministério da Defesa disse "não comentar um processo legal específico" e que "a saúde mental de todos que servem ao país é de máxima importância". Por isso, "encoraja a todos que precisem a buscar a ajuda que merecem antes, durante e após missões".

'Viúvas são vítimas também'

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Image caption Lindsey acusa o Exército de ter negligenciado a condição de Andrew

Mesmo separado, o casal continuou em contato. Andrew costumava encontrar os filhos e ligar para eles enquanto estava em sua última missão no Afeganistão.

Lindsey se recorda do momento em que soube de sua morte, dois meses após ele ter viajado.

"Estava na academia, e meu vizinho me ligou para contar que um policial havia tocado minha campainha cinco vezes ao longo de uma hora. Dirigi como louca para casa. Estava muito nervosa. Tinha certeza que ele estava morto", conta.

Ela acusa o Ministério da Defesa de não ter cumprido seu dever de cuidar de seu marido ao permitir que ele fosse uma vez mais ao Afeganistão em 2012. Também quer ser indenizada pelos prejuízos causados pelo distúrbio de Andrew.

"Espero que o Ministério perceba que as mulheres de militares também são vítimas", diz.

"Ninguém reconhece isso hoje. Ninguém fala sobre as mulheres em todo o país que são agredidas ou estão em situações ruins - ou, pior, perdem seus filhos - porque seus maridos estão (involuntariamente) violentos por conta de um estresse pós-traumático."

Lindsey criou uma organização sem fins lucrativos, a Roberts Project, para conscientizar as pessoas sobre a questão. Ela diz que seus filhos tiveram garra no período difícil.

"Somos uma família feliz. Meus filhos estão bem. São crianças fortes, passaram por muita coisa."

Ela afirma que seu marido ficaria "muito orgulhoso" da forma como ela e os filhos estão lidando com tudo pelo que passaram.

"Se ele estivesse aqui agora, estaria me apoiando."

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