Como tragédia levou curitibanos a se unirem em projeto de tênis que atende crianças carentes

Marcolin, Bonatto e Maneco posam com raquetes e uniformes do Instituto Ícaro. Direito de imagem Valterci Santos / BBC Brasil
Image caption Marcolin, Bonatto e Maneco fazem parte da 'família' do Instituto Ícaro, criado em homenagem a tenista que morreu em acidente.

"Faria qualquer coisa para conseguir atravessar essa fase tão difícil." Esse desalento resumiu, para Eduardo Marcolin, a tristeza de lidar com a perda do filho de 17 anos, Ícaro.

Técnico de tênis, Marcolin acompanhava o atleta Alexandre Bonatto em um torneio na Argentina em 2003 quando o filho, tenista que também disputava a competição, morreu em um acidente de moto no país vizinho.

Ante a dor da perda do único filho, Marcolin decidiu canalizar suas forças para ensinar o tênis a crianças carentes no Paraná. No início, diz, ele próprio foi o principal beneficiado pela iniciativa, que o amparou durante o luto. "Foi maravilhoso para me ajudar a passar por essa fase. Fiquei envolvido demais emocionalmente, e durante anos foi a minha âncora."

Anos antes, até 2000, ele manteve uma academia semelhante, com apoio do tenista Gustavo Kuerten, o Guga. Após perder apoio financeiro, porém, a ideia foi deixada de lado.

Apenas em 2004, pouco mais de um ano após a tragédia familiar, surgiu o Instituto Ícaro, que atende diretamente mais de 200 jovens e outros 2 mil por meio de parcerias.

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Image caption Cerca de 200 crianças são atendidas diretamente pelo projeto, que ainda chega a outras duas mil por meio de parcerias.

'De repente, eu não tinha mais nada'

Além de Marcolin, a tragédia afetou profundamente a Alexandre Bonatto, o tenista que, em sua melhor fase, disputava o torneio na Argentina.

"Foi um baque: ele (Ícaro) era um dos meus melhores amigos", disse à BBC Brasil.

Depois da morte, Marcolin e Bonatto tentaram manter a rotina de treinamentos. Mas, debilitados, acabaram por também perder o contato.

"Eu era uma das promessas do país - já tinha sido número 20 do mundo juvenil e o tenista que mais tinha subido no ranking da ATP (sigla para a federação internacional de tênis) - antes de isso acontecer. Depois, passei dois anos sem ganhar nada. Parecia que tinha acabado para mim. Aquilo me destruiu", diz Bonatto.

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Image caption Carla e Alexandre Bonatto voltaram a integrar o projeto em 2017: ela chefia a organização e ele, o treinamento de atletas de elite.

"Eles (os Marcolin) eram meu porto seguro. Estávamos sempre juntos e, de repente, eu não tinha mais nada", afirma o ex-tenista. "Não ter o Duda como técnico foi como ter perdido um pai."

Nesse meio tempo, o Instituto surgiu. Bonatto recuperou a carreira, mas, como resume Carla, sua mulher e assessora do projeto, o tênis não aceita tantas falhas. "(Parecia que) a carreira não tinha como dar errado. Exceto por algo como isso, sobre o qual não se tem controle."

De longe, Bonatto continuou a acompanhar o ex-técnico. Anos depois, o projeto em homenagem a Ícaro os reuniu. Hoje, o ex-tenista integra o corpo técnico do instituto e é exemplo para os atletas de alto rendimento.

"Eu e Duda sempre tivemos muita afinidade enorme, mas nossa relação era de treinador e atleta. Agora, passei para o lado dele."

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Image caption Maneco começou a treinar por influência dos irmãos mais novos. Eles conheceram o projeto por meio de parceria do Instituto com suas escolas.

Do Instituto, uma família

Um dos tenistas treinados por Bonatto é Emanuel Lima, o Maneco, de 17 anos. "Ele conhece o circuito, tem muita experiência para passar. Ele explica situações reais de jogo, como se comportar em certos aspectos, mentalmente e fisicamente", afirma Maneco.

O jovem entrou para a "família", como descreve, depois que seus dois irmãos conheceram o tênis graças à ligação da escola municipal onde estudavam com o instituto.

Há oito anos, o hobbie virou amor e passou a integrar grande parte de sua rotina. Deu, inclusive, inspiração para uma possível carreira. "O instituto me abriu várias portas: meu projeto, hoje, é uma faculdade nos EUA", planeja. Para isso, tem aulas de inglês oferecidas sem custos pela organização.

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Image caption O propósito não é formar atletas profissionais, mas a visibilidade atrai mais atletas e investimentos à organização.

Tênis para todos

Além das aulas de tênis e de inglês, o instituto oferece xadrez, massoterapia, preparo físico e fisioterapia para todos os atletas. Reforços de português e matemática também acontecem nas duas salas de estudos construídas na sede da instituição.

O intuito primordial é formar pessoas, mas desenvolver atletas profissionais ajuda o Instituto a se manter existindo. "A visibilidade atrai mais talentos e recursos. Levando 30 tenistas para o alto rendimento, bancamos dois mil (outros jovens)", estima Marcolin.

Sustentado por leis de incentivos, doações e patrocínio de um canal de TV, o projeto ainda é ligado à academia privada de Marcolin. Tenistas pagantes convivem com os atletas do instituto - e usufruem da mesma estrutura fornecida pela organização, equipamentos que vão de raquetes a calçados e uniformes.

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Image caption Quase 15 anos após a morte de Ícaro, Marcolin hoje tem cinco filhos, três academias e uma 'multidão' de crianças para educar.

Parcerias com a Prefeitura e a Secretaria da Educação de Curitiba e com uma universidade permitem que o projeto tenha 39 células, alcançando todas as nove regiões da cidade através da capacitação de professores.

Quase 15 anos após a morte do filho, Marcolin tem muitos planos inacabados, mas sente ter feito o melhor possível diante da tragédia. "Sinceramente, sou muito feliz. Em todos os sentidos - agora tenho cinco filhos (nascidos após a morte do primogênito), três academias e uma multidão de crianças para educar", diz. "Ícaro teria orgulho."

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Image caption As crianças têm acesso completo aos materiais de treinamento, além de aulas de inglês e reforço de português e matemática

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